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Tony Scott, inspirado no universo fantástico de Stephen King, cria seu Mono Blaine em “Incontrolável”

Stephen King poderia ter sido corroteirista (ou ghost writer, como está na moda) de “Incontrolável” (“Unstoppable”, no original), complementando as ideias de Mark Bomback na concepção escrita da produção que bem poderia ser considerada o “Velocidade máxima 3” da indústria cinematográfica. Como assim?!, você deve estar se perguntando. Vou chegar lá…

Sob responsabilidade de Tony “Adrenalina” Scott, o filme, (supostamente) baseado numa história real, acompanha a cadeia de eventos que resultou num trem desembestado, carregado de compostos químicos altamente inflamáveis, transitando em alta velocidade e sem condutor pela malha ferroviária do estado americano da Pensilvânia. Sentiu o frio na barriga?

O primeiro ingrediente da receita do desastre, adicionado pela irresponsabilidade de Dewey – interpretado por Ethan Suplee, versão sem graça e sombria de Jack Black −, um funcionário cabeça oca de pátio de ferrovia, chama-se erro humano. Negligenciando as normas básicas de segurança, Dewey mete os pés pelas mãos e, numa estupidez histórica, perde o controle do trem 777, que parte desgovernado, e em alta velocidade, em direção ao… Alvo! Manja um míssil? Ele só para quando atinge seu alvo e o pulveriza. O raciocínio é mais ou menos esse. Essa é a definição exata de Connie (a bocuda Rosario Dawson), uma das responsáveis por supervisionar o trabalho de sujeitos como Dewey: o 777 é um míssil do tamanho de um arranha-céu!

Para impedir o pior, entra em ação a dupla de heróis: o maquinista Frank (Denzel Washington)  − viúvo e pai de duas adolescentes − e o condutor Will (Chris Pine, o galã do momento, mais conhecido como o capitão Kirk do “Jornada nas Estrelas” de J. J. Abrams) – jovem que tenta recuperar um relacionamento que descarrilou. Frank, que por força de sua experiência se torna (involuntariamente) o mestre Yoda do Luke Skywalker de Will, representa a velha geração de proletários que tira há décadas seu sustento dos trilhos, assombrada pelo desemprego – expressão cada vez mais comum no vocabulário das classes operárias devido às novas acomodações político-econômicas entre empregadores e sindicatos. Will, abençoado (ou seria amaldiçoado?) pelo sobrenome de sangue azul, é pego no cruzamento entre as forças da querela marxista – os colegas rechaçam o rapaz por entenderem que o cargo de Will é o resultado nada ético de nepotismo.

Motivados pelo dever maior, ambos colocam de lado as desavenças provocadas pela luta de classes e partem na caçada ao trem do apocalipse. A psicologia dos personagens e o roteiro seco (incluindo somente os diálogos necessários para que a história flua) são elementos secundários, a serviço da ação vertiginosa. Um ou outro brilho na composição dramática das figuras que Scott representa em seus filmes se deve a categoria individual de atores, como o próprio Denzel, neste filme e em “Maré vermelha” (1995); Eddie Murphy em “Um tira da pesada II” (1987); Will Smith e Gene Hackman em “Inimigo do estado” (1998); e, recentemente, John Travolta no “O sequestro do metrô 123”. Com exceção talvez para “Fome de viver” (1983) e “Jogo de espiões” (2001) — alavancado pelo desempenho irretocável de Robert Redford –, ambos filmes mais lentos e cerebrais.

Aliás, aqui abro um parêntese: Tony Scott é um diretor de filmes de ação. O que caracteriza a cinematografia de Scott é a… Ação! É com esse entendimento que suas obras devem ser sorvidas. Como num filme pornô, no qual o enredo está a serviço da saliência, e não o contrário. Ninguém aluga “Garganta profunda, a revanche do gogó tarado” para assistir à historinha que serve de pano de fundo para o sexo explícito.

Elucubrar acerca das pretensões narrativas de Scott é deixar de aproveitar na plenitude o entretenimento que suas produções oferecem. Scott, que vem lapidando sua narrativa de thrillers de ação desde “Top gun – Ases indomáveis” (1986), passando por “Dias de trovão” (1990) e “Chamas da vingança” (2004), só para citar alguns exemplos, sabe como ninguém utilizar suas câmeras para construir uma estética hipertensiva, obrigando quem assiste a segurar firme na cadeira e contrair o esfíncter.

Deixo esse trabalho (a masturbação mental sobre significantes e significados), neste caso específico, para teóricos como o professor Mauro Baptista. Baptista, em seu livro “O cinema de Quentin Tarantino” (Papirus Editora, 2010), em um determinado trecho de capítulo, analisa a teoria da homossexualidade latente, proposta por Leslie Fielder, no filme “Top gun”. Segundo Fielder, a ficção americana tem dificuldade em representar o amor e o sexo entre homens e mulheres. A essa dificuldade é somada um homossexualismo latente, no sentido de que a amizade e a camaradagem masculinas são preferíveis às obrigações adultas do amor heterossexual. No filme “Vem dormir comigo” (1994), de Rory Kelley, Tarantino interpreta Syd, personagem que, numa festa qualquer, explica ao seu interlocutor por que “Top gun”, cuja encenação se desenrola numa academia de pilotos da força aérea americana, é na verdade a história de um homem lutando contra a própria homossexualidade. Prefiro ficar, como fã de filmes de ação e aventura, com a versão mais prosaica: uma história sobre um punhado de pilotos de guerra lutando contra forças inimigas russas, em vez de encarar toda aquela construção estética (expressando de forma irônica e sub-reptícia a tese de Leslie Fielder) como uma luta de espadas na qual se disputa quem vai dirigir o “rabo” de quem, como está expresso nos diálogos do filme de Scott (Ice:“Man, you can ride my tail anytime!”; Maverick:“and you can ride mine!”) – vale o registro, antes que alguém me acuse de preconceito, expressão que considero ultrapassada, estúpida e vergonhosa. Já deixei bem claro que acho que cada um deve seguir seu coração e amar como quiser. Somos todos seres humanos (.)

Concluindo: a onda para curtir Tony Scott é outra, como a provocada por uma morra explodindo na arrebentação de Jaws. Ninguém quer ficar discutindo física de ondas e hidrodinâmica ali. Você só quer ficar de queixo caído.

Voltando ao “Incontrolável”… O maior acerto do diretor, e aqui entra o universo fantástico de Stephen King (disse que chegaria lá…), foi ter concebido e focado o trem 777 como uma entidade, um personagem dotado de “motivação”. Assim como Blaine, que aparece em “As terras devastadas”, terceiro livro da franquia “A Torre Negra”. Blaine é um autômato do mal dotado de inteligência artificial que precisa ser detido antes de chegar ao seu destino. Ao iniciar sua viagem macabra, com os heróis da trama a bordo (vocês precisam ler…), ele dá início a uma contagem regressiva que causará uma explosão em estoques de cilindros de guerra química e biológica escondidos sob a cidade de Lud, liberando gases altamente tóxicos. Muita coincidência, não é verdade? Para detê-lo, Roland e seu Ka-tet (espécie de Sociedade do Anel) precisam decifrar os enigmas de Blaine durante a jornada pelas terras devastadas do título.

Será que Frank e Will conseguirão decifrar os enigmas do trem 777 e impedir a catástrofe iminente? Não conto…

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Apesar dos desvios de conduta em “Dia de treinamento” (2001), filme que lhe rendeu um Oscar, e “O gângster” (2007), e daquele biquinho ridículo que ele tornou sua marca registrada (parece um neném prestes a chorar), talvez por inveja da fartura de Angelina Jolie, Denzel, aos 56 anos, continua sendo meu herói de ébano!

p.s.2 Bom voltar a escrever 🙂

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No rastro de sangue autoral

À procura de algum filme que transgrida o arquétipo clássico do vampiro − imortalizado no cânone de Bram Stoker −, com a mesma autoralidade que consagrou “Deixa ela entrar” (2008), de Tomas Alfredson, e, mais recentemente, “Sede de sangue” (2009), de Chan-wook Park, exumei das estantes da locadora “Fome de viver” (1983) − “The hunger”, no original −, de Tony Scott.

Na bizarra trama de Scott, a senhora da escuridão (ex-bela da tarde), Miriam Blaylock, é interpretada pela musa Catherine Deneuve. Blaylock, além de colecionar objetos de arte, entulha o vazio de sua alma com amantes escolhidos a dedo, que são obrigados a compartilhar com ela – vetor de transmissão de uma espécie de anemia falciforme, que aproxima as ambições do roteiro, com assinatura de James Costigan, Ivan Davis e Michael Thomas (baseado no romance de Whitley Strieber), de “Blade” − sangue contaminado com a necessidade de se alimentar de… sangue.

“Acho que exagerei no ketchup…”

Interpretando o amante de Blaylock, John (o músico David Bowie) descobre que a imortalidade (infelizmente) não vem atrelada à juventude eterna. Sofrendo de degeneração celular acelerada – processo que o levará à mumificação – ele procura a médica Sarah Roberts (Susan Sarandon), especialista nos estudos de longevidade. Sarah repudia John, entendendo-o como louco, que é encaixotado para uma vida eterna claustrofóbica − e para longe das vistas de sua criadora − enquanto a doutora Roberts se torna a nova concubina de Blaylock.

Estilizando a figura do vampiro, Scott cria sanguessugas crepusculares: charmosos, sensuais e letais, no estilo neogótico – que relativizam a moral quando a fome aperta; e quando os pés de galinha começam a aparecer. O diretor não reinventa o gênero, como alguns alegam, mas ele se utiliza de parte da mitologia vampiresca para criar uma obra sobre a inexorabilidade do tempo e suas consequências ambíguas na psique de pessoas comuns. Ao mesmo tempo desejo e maldição, a imortalidade é o cálice sagrado que transborda de veneno, exacerbando o que há de melhor e de pior em cada um.

No desespero da decrepitude de John e na negação e inconformismo de Sarah, Tony Scott nos faz pensar acerca do conceito de finitude, seja ela existencial ou afetiva. Nossas aspirações de enganar o relógio biológico, e almejar o amor eterno, são questionadas com a seguinte dúvida: vale mesmo a pena? O término, tanto pela morte como pela desilusão (ou pelo fim da juventude), faz parte do ciclo natural da vida, necessário para que haja um novo começo, mesmo que regado a dor.

O melhor do filme? Catherine Deneuve e Susan Sarandon (com tudo em cima!) se pegando numa tórrida relação lésbica. Quem disse que vampiro não corta para os dois lados?

“É agora que eu traço você, bela da tarde! Vamos botar as aranhas para brigar é já!”

E parece que uma continuação vem por aí, dirigida pelo próprio Scott e ambientada em São Paulo. Veja a entrevista do realizador concedida ao ComingSoon.

Um aviso para os caçadores mais afoitos… Devagar com as expectativas. O filme não chega nem perto da qualidade estética e da ousadia de “Deixa ela entrar” e “Sede de sangue”. Passa longe…

Carlos Eduardo Bacellar

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