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Reflexões epistolares sobre a perda

Não, não é um fã da banda Slipknot

Caro leitor,

O livro ‘Precisamos falar sobre o Kevin’ é uma obra incrível, trabalho de uma autora de sensibilidade refinada, que não tem medo de expor os esconsos mais íntimos e sombrios de sua alma. Portanto, vou caprichar e, quem sabe?, procurar não decepcioná-lo. Não garanto nada, mas vou me esforçar. Vamos nessa…

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Ousadia é o nome da angulação responsável por aproximar as incipientes trajetórias das diretoras Lynne Ramsay e Emily Atef e cruzá-las num ponto de ferida não cicatrizada chamado incômodo. Contabilizando sete produções no currículo (sendo quatro curtas-metragens), a escocesa Ramsay aceitou o desafio de transpor para o cinema o perturbador romance epistolar Precisamos falar sobre o Kevin publicado no Brasil pela @intrinseca, da romancista americana Margaret Ann Shriver, imortalizada no meio literário como Lionel Shriver.

A coragem com que Lynne traduz para as telas as missivas catárticas de Eva Khatchadourian é análoga à que a alemã Emily Atef empreendeu na realização de “O estranho em mim” (2008), filme que fomenta a discussão acerca da depressão pós-parto. A ojeriza à gravidez e a negação da maternidade é o argumento inicial de “We need to talk about Kevin” (no original), apesar de essa premissa ter sido negligenciada no longa homônimo.

Na história de dor que mantém os questionamentos de Eva K. (Tilda Swinton, soberba) em carne viva, a outrora bem-sucedida empresária do ramo de turismo passa em revista, numa série de cartas ao marido Franklin (John C. Reilly, o Shrek da vida real), seu papel como mãe de um núcleo familiar esfacelado pelos atos hediondos de um sociopata, ninguém menos que Kevin Khatchadourian (a cargo de Ezra Miller na fase adolescente, com sei jeito emo e o olhar escuro e frio de Hannibal Lecter, que lembra o de um tubarão-branco), primogênito de Eva e Frank. Responsável pelo chacina que vitimou sete colegas, uma professora e um funcionário de sua escola, situada nos subúrbios de Nova Iorque, Kevin é o ponto de partida para as interrogações de Eva sobre seu papel como mãe, suas escolhas pessoais e profissionais e seu relacionamento com a família.

A exegese apressada da obra de Shriver poderia ludibriar o leitor mais afoito. A depressão pós-parto nem sequer tangencia a convergência de fatores que levou à tragédia pessoal de Eva K. O principal foco do “Elefante” (Gus Van Sant, 2003) de Shriver, cujo roteiro é assinado pela própria Ramsay e Rory Kinnear, é a recuperação pós-assassinatos. Como explicar para ela mesma ex-empreendedora de sucesso, até pouco tempo mãe de um lar de classe média alta americano, pilar da suposta família perfeita o degeneramento homicida de sua prole? De que modo assumir sua parcela de culpa no massacre e ao mesmo tempo se desculpar com a sociedade, o marido e a filha Celia (Ashley Gerasimovich)? É possível continuar vivendo sob o estigma da repulsa? É possível continuar amando? É possível sentir alguma coisa, qualquer coisa?

Lionel Shriver, ao compor seu romance, criou um artifício narrativo para contrabalançar o sentimento antimaterno nutrido por Eva. Talvez para aliviar sua personagem das críticas, talvez um mecanismo de defesa criado pela própria Khatchadourian (já que é ela quem dá voz a suas angústias por meio das palavras) para justificar seu comportamento, Kevin é, desde o berço, delineado como o anticristo. Shriver estabelece o mais desumano antagonismo que pode existir, o de uma mãe por um filho: o prenúncio do pior. Paradoxalmente, essa mesma rixa aproxima os personagens, e os torna tão fascinantes.

Quando aquele bebê se conterceu em meu seio, do qual se afastou com tamanho desagrado, eu retribuí a rejeição talvez fosse quinze vezes menor do que eu, mas, naquele momento, isso me pareceu justo. Desde então, lutamos um contra o outro, com uma ferocidade tão implacável que chego quase a admirá-la. Mas deve ser possível granjear devoção quando se testa um antagonismo até o último limite, fazer as pessoas se aproximarem mais pelo próprio ato de empurrá-las para longe.”

Durante toda a encenação, Tilda Swinton (impecável ao transparecer o drama de Eva), sentindo-se culpada, tenta expurgar sua personagem do sangue alheio derramado, impregnado como tatuagem nas camadas mais profundas de sua epiderme. Os enquadramentos opressores da fotografia de Seamus McGarvey devassam as camadas superficiais de estoicismo, revelando perturbações profundas que são disfarçadas pela conveniência e desmantelam a máscara de aparências.

Sem entrar em polêmicas interpretações religiosas, arrisco dizer que todo sofrimento tem um fim: seja pela morte, por sua assimilação ou por sua resignificação. A compreensão dessa possibilidade talvez tenha resgatado Eva do torpor sentimental. Da perda, ela consegue extrair aquilo que estava escamoteado por camadas de conflitos e negações. E um motivo para continuar amando.

Buscar paralelos entre o comportamento de Kevin e o do assassino de Realengo é um equívoco. Nas duas chacinas, o único denominador comum são as mortes. Se falarmos em motivações, o fanatismo religioso que supostamente catalisou o desenlace no subúrbio do Rio passa longe dos componentes sociais, políticos, econômicos e culturais que deturparam os valores morais de boa parte da juventude americana, relegando-a à alienação.

Lynne Ramsay sabe que o objetivo de Shriver não era escrever mais um “Tiros em Columbine” (2002). Expondo seus fantasmas para a pessoa que ama, com a qual se sente mais confortável, ela procura formas de se desculpar, se explicar, se arrepender, entender (e se entender), perdoar (inclusive a si mesma), enlutar. Eva, colocando no papel o que é pensado, mas nunca verbalizado, se liberta do claustro de expiação erigido por ela mesma. A recuperação de um longo luto que dura 463 páginas no livro e 112 minutos na telas. E abre o capítulo de uma nova história para o futuro.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Lionel Shriver é uma das mais inteligentes romancistas contemporâneas. Seus textos de fundo psicológico traduzem sentimentos em palavras com uma riqueza sintático-metafórica sem par. O que existe de mais humano está lá. Não deixe de lê-la.

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We need to talk about Kevin

Com o Lumière lotado às 8h30, assisti ao filme. E há muito não vejo uma adaptação literária tão bem realizada. A câmera grita por um lado. Por outro, o silêncio domina  a alma, construindo o amor incondicional de uma mãe. Vivida pela brilhante atriz Tilda Swinton, Eva desafia a todos nós que mal dormimos desde os distúrbios psicológicos do massacre de Realengo. E nos interpela com a dúvida: e se fosse o seu filho? Filme eletrizante.

Helena Sroulevich

P.S.: Agora corro para o Mercado e espero assistir ao brasileiro “Trabalhar cansa”, às 14h. Rezem para eu conseguir entrar.

 

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