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Anjos do desejo de Pina Bausch

Para o Prosa & Verso, hum…, Prosa & Ver(Su)

A dança e a alma

(Carlos Drummond de Andrade)

A dança? Não é movimento,

súbito gesto musical

É concentração, num momento,

da humana graça natural

No solo não, no éter pairamos,

nele amaríamos ficar.

A dança – não vento nos ramos:

seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão,

novo domínio conquistado,

onde busque nossa paixão

libertar-se por todo lado…

Onde a alma possa descrever

suas mais divinas parábolas

sem fugir a forma do ser

por sobre o mistério das fábulas.

violência (vi:o.lên.ci:a) sf. 2 Grande força ou poder próprio a uma ação, processo ou fenômeno social

Nem todas as acepções de violência são pejorativas: assim como envenenar, ela pode curar. Partindo desta significação, a coreógrafa alemã Pina Bausch (1940-2009) municiou corpos com a desinibição necessária para, por meio de movimentos, exprimir o inefável. Quando as palavras são insuficientes para traduzir estados de espírito, a dança pode ser o novo alfabeto – e o que antes não podia ser articulado, agora pode ser percebido pelos sentidos.

A violência das orquestrações de Pina – que entrelaça teatro e dança em apresentações marcadas pelo impacto da estranheza – contra a impossibilidade de expressão encantou o cineasta Wim Wenders, que percebeu nas possibilidades do 3-D formas de explorar as camadas de intensidade do trabalho da coreógrafa. Decifrá-lo talvez seja impossível, até mesmo não desejável – como na mágica, uma vez que o truque é revelado, o encantamento se esvai; a interrogação é o significado. O objetivo de Wenders era registrar aquela catarse de evoluções e imortalizá-las; uma obra de arte em constante inquietação.

Lacônica e enigmática, a bailarina alemã transformou sua companhia, a Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, num centro de experimentação do corpo cujas raízes se prolongam até o expressionismo alemão. Mulher de poucas palavras, Pina instigava seus bailarinos conversando pouco, o que os desconcertava, mas exigindo muito. Cada palavra era um estímulo e uma provocação. Cabia ao profissional internalizá-la. Como um chamariz, as expressões semeadas por Pina, aparentemente sem sentido para alguém fora do contexto, germinavam no inconsciente dos bailarinos e os obrigavam a atrair o melhor (ou o pior) de si.

De início um projeto que tinha como protagonista a dança, “Pina”, com a morte da coreógrafa de câncer, há cerca de quase três anos, transformou-se num tributo. O doc intercala depoimentos de bailarinos – que, apesar de falarem línguas diferentes, descobriram a solução para a Torre de Babel: eles se entendem na dança – da Tanztheater Wuppertal Pina Bausch com apresentações capturadas nos tradicionais palcos, ornamentados pelos elementos – terra, água, pedra… –, muito valorizados por Pina, e em lugares inusitados. As ruas de Wuppertal tornam-se parte da cenografia, bem como qualquer outro ambiente em que não se espera assistir a uma apresentação de dança. Imagens de arquivo da coreógrafa trabalhando e dançando são intercaladas na montagem. Temos a impressão de que Pina continua a observar o desenvolvimento de seu trabalho, certificando-se de que tudo está da maneira como ela deseja. No registro de uma apresentação de “Café Müller”, que arrepia os pelos do braço, Pina desenvolve sua coreografia de olhos fechados: enxergar não é preciso, dançar com a alma, sim.

A fotografia de Hélène Louvart (“As praias de Agnès”, 2008), que traja as coreografias com os “Sonhos” (1990) de Akira Kurosawa, emoldura os enquadramentos num estilo de propagandas dos perfumes Kenzo. Ao doc interpretações não cabem – Wenders rechaça qualquer tipo de roteiro; nossos sentidos são deslocados da concretude dos diálogos para a abstração externada pelas formas que o corpo pode representar quando o conteúdo do invólucro orgânico extravasa e borra as palavras do dicionário com o excesso.

Na rotina do cotidiano, nossas percepções e reações à realidade se tornam embotadas. As peças de Pina, impondo uma nova consciência dramática da recepção de estímulos, renovam essas reações habituais, tornando nosso caos interno mais perceptível e passível de ser compartilhado. O The Independent comparou a intensidade, violência e erotismo de “Cisne Negro” (2010), do diretor Darren Aronofsky, às produções de Pina.

O documentário, indicado ao Oscar deste ano na categoria, vai além da homenagem, da deferência ao teatro-dança e do deslumbramento visual. A obra de Wenders conjuga tecnologia com autoralidade, aumentando o alcance do 3-D – que capta o que, apesar de a vista não discernir, é impossível não sentir. Só os bailarinos de Pina, que durante as apresentações se tornam sobre-humanos, anjos do desejo da coreógrafa, podem nos proporcionar um vislumbre do que nem todas as dimensões são capazes de explicar.

 Carlos Eduardo Bacellar

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Forrest Gump da desilusão

Para a amiga @hsroulevich, pelos puxões de orelha (chamados à razão) necessários nos momentos de destempero

Perceber as dimensões paradoxais que tornam intercambiáveis as fronteiras entre amor e ódio e os subprodutos do desgaste psicológico gerados com a aproximação e reaproximação de desejos e expectativas antípodas — pode facilitar o entendimento de como alguém é capaz de desistir da pessoa que ama (e até de si próprio) como gesto de altruísmo máximo.

O desapego, que pode ser caracterizado como um evento traumático ao ocorrer inopinadamente, de forma violenta , pode cobrar um preço mais alto do que a saudade do outro, o medo da solidão, o vazio existencial, a perda de referências, a falta de vontade de seguir em frente. A perda da memória seria o ônus de uma cisão afetiva brusca ou um mecanismo de sobrevivência derivado desse mesmo rompimento, que permitiria ao indivíduo um recomeço (ou simplesmente encontrar um modo de continuar)?

Essa perturbação psicológica é o fim de um lado, mas ao mesmo tempo o início por outro, de “Paris, Texas”, obra-prima do diretor alemão Wim Wenders, autor dos magistrais “Asas do desejo” (1987) — o verdadeiro “Cidade dos anjos” — e “Medo e obsessão” (2004).

Neste drama, orçado em £1,162,000 — que rendeu ao realizador, além da Palma de Ouro, os prêmios Fipresci (láurea concedida pela Federação Internacional de Críticos de Cinema, colegiado de críticos e jornalistas especializados) e do Júri Ecumênico no Festival de Cannes de 1984 , a desolação da alma e a geográfica são conjugadas logo nos minutos iniciais, quando as câmeras de Wenders acompanham (causando enorme estranhamento) a bizarra peregrinação de um homem pelo deserto, aparentemente rumando para a civilização mais próxima, diria o bom-senso.

Logo descobrimos que se trata de Travis Henderson (Harry Dean Stanton, estupendo), pai de família e irmão querido desaparecido há quatro anos. E parece que tudo que ele não quer é ser encontrado. Acionado pelo médico de uma cidade situada perto de Deus me livre, depois de onde Judas perdeu as botas, perdida em algum ponto do deserto texano, Walt (Dean Stockwell), irmão de Travis, viaja para encontrá-lo e trazê-lo novamente para perto da família, teoricamente o seu lugar (pelo menos o lugar a que Walt acredita que ele pertence). O que ele não sabia é que seria uma missão de resgate, do corpo e da mente, e exigiria mais do que o (simples) gasto extraordinário de algumas centenas de dólares.

Encontrando Travis, Walt descobre que ele perdeu a memória, ou parece que teve seu histórico social e emocional bagunçado por algum trauma. No decorrer da narrativa, o diretor esculpe na encenação a desconstrução do passado de Travis, desvelando os motivos que o levaram à misantropia.

Casado com uma mulher bem mais nova, Jane, vivida pela afroditiana Nastassja Kinski (“One night stand”, 1997), pai de Hunter, menino agora criado pela família de Walt, após ser abandonado pela mãe, Travis tinha tudo para quem o via de fora. Quem  olhasse mais atentamente perceberia que o amor, naquela relação, agia como um veneno: na dosagem correta poderia salvar; se fosse administrado fora da prescrição recomendada pelo equilíbrio emocional, poderia ser devastador.

Atormentado pelo ciúme, aditivado pela possessividade, Travis desestabiliza os alicerces de uma relação que começou intensa, mas foi esfacelada com a mesma força pelo descompasso de vontades (ou ausência delas). Jane, imatura e despreparada para os desafios da vida a dois, mingua frente aos anseios e ao comportamento agressivo de Travis. Polarizados pelas inadequações (idiossincráticas) do gostar, os dois sentem a história de amor desandar para um roteiro de terror, com Hunter, rebento amado/odiado, o filho eterno tezziano do casal, na beira do precipício do descontrole dos pais.

Despreparado para rejeição e perda, Travis parte sem destino, almejando encontrar-se novamente consigo mesmo em algum ponto futuro, livre da dor. Só que a dor não é uma companheira de viagem que ele pode despistar com a distância ou confundir com a prestidigitação de seus sentimentos, mas um parasita que o acompanha e devasta seu cerne.

Resgatado pelo irmão de seu calvário, ou da anestesia do espírito, Travis reencontra o filho e, revitalizado, junto com Hunter, parte numa nova jornada em busca de Jane. Lúcido novamente, Travis precisará de todo seu controle para desenredar Jane da espiral de decadência que a levou para trabalhar num zoológico humano, um peep show que comercializa corpos em detrimento da dignidade. Travis e Jane, frente a frente numa cabine de pecados enrustidos, protagonizam um dos melhores diálogos (ou seria um monólogo?) da história do cinema, rivalizando, em profundidade e categoria dramática, com a interação verbal de Christopher Walken e Dennis Hopper em “True romance” (Tony Scott, 1993).

 

Este road movie dentro de um road movie calcado no expresso (verbo) e no impresso (gravado com tinta invisível em algum lugar entre o coração e o estômago) amplificado em sua melodia triste pela fotografia de Robby Müller, responsável pela formatação da luz em “Ghost dog: the way of the samurai” (Jim Jarmusch, 1999) e “Dancer in the dark” (Lars von Trier, 2000), e pela trilha sonora aclimatadora de Ry Cooder — traduz a perda inevitável (e necessária) para a aceitação das incongruências do outro e a valorização do recomeço, mesmo após toda destruição provocada pelas atitudes intempestivas.

O título do filme — que remete a Paris, no Texas, e não à cidade francesa — reflete a confusão de identidades, a quebra de expectativas, a contradição de sujeitos, a desilusão com o real, mas, também, nos mostra que a beleza pode surgir dos lugares mais improváveis. Uma nova Dubai depende só da vontade e da riqueza interna de quem está envolvido.

Na produção roteirizada por L.M. Kit Carson e Sam Shepard, Wim Wenders não fala (somente) de identidade, mas da possibilidade de construir novamente a partir da fragmentação excruciante. No centro, um núcleo familiar imperfeito (como todos os outros): unidade indivisível (e fundamental) do ser que precisa encontrar seus caminhos, mesmo que (outro oxímoro…) divergentes.

Carlos Eduardo Bacellar

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(E)le é doido por cinema!

(E)le é doido por cinema. No currículo, 87 filmes e um CD tributo às trilhas sonoras – “The Original Soundtracks V.1” -, feito em parceria com Brian Eno.

(E)le é doido por cinema.  Seus belos gorjeios podem ser apreciados em “O Escafandro e a Borboleta” (2007), “O Diabo veste Prada” (2006), “Closer” (2000), “Moulin Rouge” (2001) e “Batman Eternamente” (1995). Foi indicado ao Oscar e vencedor do Globo de Ouro com “Gangues de Nova Iorque” (2002). Recentemente, seus agudos me levaram à exibição de “Entre Irmãos” (2009).

(E)le é doido por cinema. É faz tudo (autor, ator, compositor e produtor) de “O Hotel de Um Milhão de Dólares” (2000), dirigido por Wim Wenders. Para o cineasta alemão, compôs as canções-tema de “Bis ans Ende der Welt (Até o Fim do Mundo, 1991), “In weiter Ferne, so nah!” (Tão longe, Tão Perto, 1993) e “Don’t Come Knocking” (Estrela Solitária, 2005). Interpretada por Tina Turner, “Goldeneye”, de “007 contra Goldeneye” (1995), é de sua autoria. Como Dr. Robert, apareceu no romance sexo, drogas e rock n’ roll “Across the Universe” (2007). E chega aos 50 anos hoje como sonho de consumo na forma de gente de muita mulher por aí.

O dia é de Paul David Hewson, o Bono Vox. Líder do conjunto de rock irlandês U2, a vasta carreira no cinema lhe garante vaga cativa na cinefelia mundial.  (E)le é doido por cinema mesmo, a ponto de sua filmografia (individual e como grupo – U2) estar incompleta no IMDB (referência principal de pesquisas cinéfilas). Como fã-paciente terminal do rapaz e doida por cinema, confirmei cada um dos 87 títulos.

E não posso deixar de registrar meus desejos de felicidades e vida longa ao inspirador Bono. É grande ativista dos Direitos Humanos, mobilizador global da justiça social, incansável articulador político (e econômico) na defesa dos países pobres. Principalmente dos africanos face à extrema pobreza e carências de saúde pública. Herdeiro da barbárie religiosa irlandesa e da utopia matrimonial católico-protestante, Bono é Voz de coexistência pacífica, traduzida em belas canções capazes de sensibilizar a todos. É um (A)rtista! Viva, Bono!

Helena Sroulevich

P.S. Ah… Canta pra gente aí, vai… 🙂

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