Crítica em xeque

“[…] O trabalho crítico é isso, pensar através da escrita; escrever para entender, muito mais do que para comunicar, ou ditar (para não usar outro termo) regra, como em geral se pensa.”

Luiz Zanin

Marcelo Ikeda é, sem dúvida, um dos expoentes que pensa a sétima arte − e tudo que gira em torno dela – no país. Professor de Cinema e Audiovisual, ele transcende o quadro negro e faz (também) da blogosfera instrumento de divulgação de ideias e arena de militância intelectual pelo Cinema.

Autor do blog Cinecasulofilia, Ikeda postou por lá reflexões que questionam o status do que é produzido por uma parcela da crítica de cinema hodierna e, de quebra, o ranço catequizador que impregna as exegeses desse grupo dito “iniciado”. O desequilíbrio entre forma e conteúdo nos textos − que, muitas vezes, entrelaça propaganda, proselitismo, disputas de egos e interesses extrafilme −, torna as leituras viciadas e perigosamente parciais.

Incomodado com o que chama de “militarização da escrita”, e com o academicismo que engessa a análise estética, Marcelo reflete acerca das produções da crítica especializada – monólogos, cristalizados em dogmas, que visam a incutir no público a gramática “correta” para compreender a sintaxe da linguagem cinematográfica.

Partidários de leituras plurais, despidas de preconceitos e refratárias a doutrinações do olhar, nós comungamos com o pensamento defendido por Marcelo de que a crítica inspiradora é aquela que “’tira o chão’ do espectador, que o faz repensar o que é o filme, e não a que ‘o ensina o que ele deveria ter visto’”.

A republicação deste post no Doidos tem como objetivo multiplicar as dúvidas e incertezas que o professor semeia no nosso espírito crítico. E, como sublinha o autor, suas palavras não pretendem “afirmar verdades sobre a crítica, ensinar às pessoas como se deve escrever. O máximo que esse texto pode ser é um ponto de partida, que leve a um questionamento de qual é o papel da crítica e do crítico.”

Merece leitura atenta, e seus reflexos devem se estender para além do ponto final em nossa agenda de discussões.

Ikeda, o espaço é seu.

Carlos Eduardo Bacellar

A crítica (o crítico) como um barco à deriva

Como escrever uma crítica? Me incomoda o fato de que alguns críticos, quando analisam obras cinematográficas vanguardistas, o façam a partir de um texto acadêmico, rançoso. Isso por mim já é uma contradição por si, ainda mais quando se investiga um cinema contemporâneo, um cinema grávido do hoje. Uma escrita acadêmica para se defender um cinema do futuro, um cinema que desafia as possibilidades? Quero uma crítica que vá além do filme, e para ir além do filme, ela precisa naturalmente ir além das palavras.

As pessoas – e nisso incluo os próprios estudos de comunicação – ainda não conseguem perceber que para o texto ser rigoroso ele não precisa ser necessariamente acadêmico. Há uma defesa por uma “militarização da escrita”, por um “bom gosto” da escrita, que na verdade é o mesmo bom gosto academicista que recusou os quadros dos impressionistas e dos modernistas, por exemplo. É tão absurdo como se se dissesse que o cinema de Wiseman não é rigoroso porque sua câmera é trôpega. Há pessoas que escrevem sobre o cinema de James Benning como se estivessem escrevendo sobre o sétimo filme de Elia Kazan (e nem mesmo o sétimo filme de Kazan merece que se escreva desse jeito).

O rigor do texto parte do olhar de quem o escreve, e não pela “militarização da escrita”. Como se pode defender um cinema antibelicista se se utiliza uma escrita militar? Como pensar o papel do crítico? Não me interessa o crítico que vomite verdades para o leitor, me interessa a crítica que “tira o chão” do espectador, que o faz repensar o que é o filme, e não o que “o ensina o que ele deveria ter visto”. Não me interessa a crítica que “oriente”, “informe” o leitor, mas sim aquela que o “desoriente”, “desnorteie”, aquela que faça o espectador não mais saber o que é o filme que ele pensou ter visto. Uma crítica que espalhe incertezas, dúvidas.

E acredito que isso só é possível de uma forma: a de que o leitor seja um cúmplice do escritor. A crítica como um barco à deriva, “totalmente” ao léu (“totalmente” em termos). Escrever passa a ser lançar-se a uma aventura na folha de papel em branco, guiada pelos sentimentos que o filme trouxe mas como ponto de partida, e não como destino de chegada. Não me interessa a crítica como um porto seguro, e sim como um barco à deriva. O crítico escreve sobre o filme, que ele no fundo não sabe bem como é. Ele escreve para tentar decifrar. Ele então divide com o leitor as suas dúvidas, as suas angústias. Ele no fundo escreve sobre si. Ele no fundo escreve para si. Ele escreve para tentar entender, mas não consegue, fracassa. “Decifra-me ou te devoro”, e o crítico é sempre devorado pela esfinge fílmica. A boa crítica é aquela preenchida pelo fracasso, consumida pelo sentimento do crítico de não conseguir dar conta do que é o filme. Como isso é possível? Através de uma escrita trôpega, e não cartesiana, retilínea, apolínea, academicista, militar.

Toda a crítica é subjetiva, não existe um caráter científico, não existe método. Ou melhor, o único método válido para a crítica é a sinceridade, a honestidade, a franqueza. Espero que esteja claro que o que proponho para a crítica tem um sentido positivo, e não meramente niilista. Ou seja, o que venho falando evidentemente não significa que se pode escrever qualquer coisa, que se atire pelo papel em branco as palavras soltas, sem encadeamento. Evidentemente não é isso o que quero defender. Mas sim a possibilidade da crítica ser algo menos rançoso, que ela não deixa de ser rigorosa só porque fugiu do “vovô viu a uva”. O crítico deve descer do seu pedestal de “especialista” e se embrenhar na mata fechada que é o universo do filme. Deve ver o filme sentado na mesma poltrona dos espectadores, e não no camarote, convidado pelos príncipes palacianos.

A crítica não deve ser usada como palanque de interesses além do filme, isto é, discursos politiqueiros (vejam bem, “politiqueiros”, e não políticos), brigas eleitoreiras, picuinhas acadêmicas, conchavos interesseiros, floreios parnasianos, etc. A crítica deve ser “desinteresseira”, e não “desinteressada”. Ou seja, a crítica não pode ser instrumento de exercício de poder (como “quem tem a razão?”, “quem tem o discurso dominante sobre tal filme?, ou sobre “as tendências do momento”). Da mesma forma que quando digo que o crítico no fundo fala de si – ou ainda, que escreve para si – com isso de modo algum quero dizer que se faz crítica por autoanálise, por mero exercício narcisista. Entender dessa forma é tão absurdo quanto alguém dizer que os filmes-diários de Jonas Mekas são meros exercícios exibicionistas, que não interessam a ninguém a não ser o seu círculo de amigos. Ao contrário, o crítico escreve para ser lido, mas que essa leitura torne o leitor mais ativo, e não meramente passivo, ou meramente apre(e)ndendo os “ensinamentos do crítico-especialista”. Essa sim é que é uma forma narcisista e egoísta de escrita.

A que proponho, ao contrário, é uma forma livre, cuja leitura seja um ponto de partida para o leitor, que, a partir dela, formule o seu próprio filme. A crítica deve ser vista como um exercício impossível. Jornais, revistas, livros, sites, blogs, etc.: o meio de circulação da crítica é cada vez mais variado mas, se atentarmos bem, sua forma continua rigidamente cristalina: de um lado, a crítica como “entretenimento” ou “informação”; de outro, a crítica como “ciência da comunicação” (a crítica acadêmico-escolar, de caráter apostolar e episcopal, formando “seitas” e “súditos” que devem se digladiar defendendo ou denegrindo o próximo filme do diretor beltrano, mesmo que ele ainda sequer tenha sido filmado).

Já imagino que, a partir deste texto, as pessoas do meio já digam que estou acusando “beltrano, ciclano e fulano”, mas aqui não se trata de dar “nomes aos bois”. Não quero denegrir o trabalho de ninguém, mas apenas expressar minha insatisfação com o que leio sobre cinema. E não só no Brasil mas no mundo, já que muito do que se escreve no Brasil é copiado de um estilo de crítica que vem de fora, seja qual for o lado da moeda (é como os realizadores brasileiros que ou copiam hollywood ou copiam apichatpong). Se eu rotular, classificar, categorizar os veículos e os críticos em “A, “B” ou “C”, estarei fazendo exatamente aquilo que eu tento combater nesse texto.

Não quero ensinar ninguém a escrever (esse texto não pretende inaugurar um curso de “métodos como fazer uma escrita trôpega”, etc). Mas, ao contrário, esse texto pretende espalhar dúvidas, incertezas, dividi-las com o leitor. E não afirmar verdades sobre a crítica, ensinar às pessoas como se deve escrever. O máximo que esse texto pode ser é um ponto de partida, que leve a um questionamento de qual é o papel da crítica e do crítico. Se ele fizer isso, terá cumprido o seu papel.

Marcelo Ikeda é professor do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará (UFC). Mantém o blog http://www.cinecasulofilia.blogspot.com. Diretor e roteirista de diversos curtas-metragens e dos longas experimentais Desertum e Êxodo.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Crítica em xeque

  1. christianjafas

    Olá Helena,

    O pessoal do Cinema Nosso está divulgando os cursos deste semestre e toda ajuda é muito bem-vinda. A Produtora-Escola do grupo também está oferecendo oportunidade para estágio. Publiquei no meu blog e peço permissão para colocar aqui os links. Se der para soltar um post no seu blog será ótimo.

    Grande abraço,
    Christian Jafas
    http://christianjafas.wordpress.com/

    Cinema Nosso:
    http://www.cinemanosso.org.br/content/inscricoes-abertas-para-os-cursos-regulares-do-cinema-nosso-1

    Produtora-Escola:
    http://www.cinemanosso.org.br/content/produtora-escola-cinema-nosso-procura-jovem-talento-0

  2. Pingback: Marcelo Ikeda

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