Arquivo do mês: outubro 2013

Mate-me por favor

only lovers left alive

O enlace matrimonial entre dois seres centenários é a proposição do diretor americano Jim Jarmusch para continuar tratando das jornadas espirituais de personagens na interseção entre o religioso, o místico e o filosófico. Segundo a Bíblia, Adão e Eva formaram o casal primevo. Em “Only lovers left alive”, Jarmusch encampa os nomes bíblicos para estabelecer a relação de mútua dependência entre vampiros e o restante da humanidade.

Adão (Tom Hiddleston) e Eva (Tilda Swinton) são, ao mesmo tempo, repositórios e produtores de conhecimento. Sem eles e outros homo quirópteros – como Christopher Marlowe (John Hurt), dramaturgo e poeta supostamente morto no final do século XVI, mas que, segundo o roteiro, é o autor por trás das obras de Shakespeare –, os humanos seriam relegados à ignorância e à barbárie.

Vivendo na sombra e traficando sangue para sobreviver, Adão e Eva são a metáfora (paradoxalmente) antropocêntrica do ensaio A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin. A humanidade seria uma cópia (ou versão) tosca dos seres primordiais que, à medida que se distancia do DNA original, degenera-se e é acometida por pecados e vícios: zumbis, nem vivos, nem mortos, algo ali no meio. Verter sangue seria uma forma de expurgo, por um lado, e um modo de conseguir a substância vital para sustentar uma raça superior (ou mais esclarecida, versada nas artes), por outro.

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O vampiro é a personificação ideal do sujeito marginal explorado por Jarmusch em suas produções – arquétipo da cultura punk. Mate-me por favor é o título do livro sagrado de Legs MacNeil e Gillian McCain acerca da gênese do movimento punk. Traduz bem a ambiguidade dos atos de Adão e Eva: blasfêmia e glorificação; assassinato e sacrifício; repúdio e atração. A tentação de transformar é grande, mas perigosa (sangue de qualidade é cada vez mais escasso, contaminado pelas atitudes da própria natureza torta de quem o fornece). Ao mesmo tempo bênção e maldição, a imortalidade sustentada por glóbulos vermelhos pode se tornar insuportável, a ponto de Adão cogitar dar um fim à sua existência disparando uma bala de madeira em seu coração. A mente artística desperta é sempre seduzida pela depressão.

O elemento de desequalização que se torna mais um problema a ser gerenciado é a cunhada de Adão, Ava (Mia Wasikowska), uma versão degenerada da espécie que suplantou o homem no topo da cadeia alimentar. Impulsiva, desmedida, encrenqueira, incontrolável, o caos com caninos avantajados. Talvez ser seja difícil, independentemente do humano – ou apesar do humano. A perfeição sempre será uma utopia quando existe o outro, na medida em que somos xerox de carne e osso. Algo se cria, algo se perde e tudo se transforma. Permanent vacation.

Debruçando-se sobre uma história de amor não convencional, repleta de significados sobre as idiossincrasias e contradições da condição humana, Jarmusch subverte o cânone de Bram Stoker e enriquece com sangue autoral uma mitologia que já foi explorada com criatividade em produções como “Fome de viver”, do diretor inglês Tony Scott (que se suicidou em 2012), “Deixa ela entrar”, do sueco Tomas Alfredson, e “Sede de sangue”, do sul-coreano Park Chan-wook.

 Carlos Eduardo Bacellar

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp