Arquivo do mês: dezembro 2012

Os melhores e, claro, os piores filmes de 2012

A espera acabou. Eis as listas que não poderiam deixar de figurar no @doidoscine nos estertores deste ano…

Os 10 melhores filmes de 2012:

cinema palmas

1) “O hobbit – uma jornada inesperada”, de Peter Jackson > crítica

1) “A separação”, de Asghar Fahradi > crítica

2) “A invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese > crítica

3) “Drive”, de Nicolas Winding Refn > crítica

4) “Intocáveis”, de Olivier Nakache e Eric Toledano > crítica

5) “Caminho para o nada”, de Monte Hellman

6) “Shame”, de Steve McQueen > crítica

7) “Pina”, de Wim Wenders > crítica

8) “O artista”, de Michel Hazanavicius > crítica

9) “Moonrise Kingdom”, de Wes Anderson > crítica

10) “Argo”, de Ben Affleck > crítica

Alguns dos filmes que escaparam pelos poros do filtro estético, mas têm qualidades (o que dá uma noção de quanto é angustiante a escolha):

A Dark theater hall showing the seats

Os Vingadores”, de Joss Whedon

A vida de Pi”, de Ang Lee

As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky > crítica

This must be the place”, de Paolo Sorrentino

The girl with the dragon tattoo”, de David Fincher > crítica

A tentação”, de Matthew Chapman > crítica

Na terra de amor e ódio”, de Angelina Jolie > crítica

Ted”, de Seth MacFarlane

Tão forte e tão perto”, de Stephen Daldry > crítica

Sombras da noite”, de Tim Burton > crítica

Sudoeste”, de Eduardo Nunes > crítica

Slovenian girl”, de Damjan Kozole

Skyfall”, de Sam Mendes

Sete dias com Marilyn”, de Simon Curtis > crítica

Ruby Sparks: a namorada perfeita”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris > crítica

Rota irlandesa”, de Ken Loach > crítica

Românticos anônimos”, de Jean-Pierre Améris > crítica

Romance de formação”, de Julia De Simone > crítica

Raul – o início, o meio e o fim”, de Walter Carvalho

O porto”, de Aki Kaurismäki > crítica

Poder paranormal”, de Rodrigo Cortés

A perseguição”, de Joe Carnahan

Para Roma, com amor”, de Woody Allen > crítica

Paraísos artificiais”, de Marcos Prado > crítica

As palavras”, de Brian Klugman e Lee Sternthal

No”, de Pablo Larraín

A negociação”, de Nicholas Jarecki

“As neves do Kilimanjaro”, de Robert Guédiguian

“A música segundo Tom Jobim”, de Nelson Pereira dos Santos

O monge”, de Dominik Moll

O moinho e a cruz”, de Lech Majewski

Um método perigoso”, de David Cronenberg > crítica

Magic Mike”, de Steven Soderbergh

O legado Bourne”, de Tony Gilroy

L’Apollonide os amores da casa de tolerância”, de Bertrand Bonello

Jovens adultos”, de Jason Reitman > crítica

“Isto não é um filme”, de Jafar Panahi

Infância clandestina”, de Benjamín Ávila > crítica

O impossível”, de Juan Antonio Bayona

Hotel Transilvânia”, de Genndy Tartakovsky

O homem que mudou o jogo”, de Bennett Miller > crítica

O homem da máfia”, de Andrew Dominik

Histórias cruzadas”, de Tate Taylor > crítica

Heleno”, de José Henrique Fonseca > crítica

Hasta la vista: venha como você é”, de Geoffrey Enthoven

Habemus Papam”, de Nanni Moretti > crítica

A guerra está declarada”, de Valérie Donzelli

Frankenweenie”, de Tim Burton

“Febre do Rato”, de Claudio Assis

O espião que sabia demais”, de Tomas Alfredson > crítica

O espetacular Homem-Aranha”, de Marc Webb > crítica

Na estrada”, de Walter Salles > crítica

Entre o amor e a paixão”, de Sarah Polley > crítica

Elles”, de Malgorzata Szumowska

Elefante branco”, de Pablo Trapero > crítica

Deus da carnificina”, de Roman Polanski

O ditador”, de Larry Charles

Os descendentes”, de Alexander Payne > crítica

Cosmópolis”, de David Cronenberg > crítica

Conspiração americana”, de Robert Redford

Busca implacável 2”, de Olivier Megaton

Batman: o cavaleiro das trevas ressurge”, de Christopher Nolan > crítica

Apenas uma noite”, de Massy Tadjedin > crítica

Amor e dor”, de Ye Lou

Um alguém apaixonado”, de Abbas Kiarostami > crítica: Carlos Eduardo Bacellar crítica: Claudia Furiati

Albert Nobbs”, de Rodrigo García

360”, de Fernando Meirelles > crítica

Agora vamos à lista menos glamurosa, não obstante muito mais divertida de elaborar. 

Os piores de 2012:

cinema_show de horror

Ouro: “Fausto”, de Aleksandr Sokurov > quebra de recorde olímpico; o recorde mundial continua com “Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas” (2010), do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul

Prata: “Minha felicidade”, de Sergei Loznitsa > crítica

Bronze: “Holy motors”, de Leos Carax > crítica

A piada sul-coreana de mau gosto de 2012: menção horrorosa para o insuportável “Hahaha”, de Sang-soo Hong

Carlos Eduardo Bacellar

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Os melhores livros de 2012

cinema x livro

Você deve estar se perguntando: onde está a lista com os melhores filmes de 2012? O ano ainda não acabou, e hoje é dia de estreias. Tudo em seu tempo… Enquanto isso, vai se divertindo com a lista dos 20 melhores livros publicados no Brasil este ano, além de duas menções honrosas para primorosos trabalhos de tradução e uma sacanagem com a Helena. Infelizmente, apesar dos esforços, o blog não conseguiu entrar em contato com o crítico literário Rodrigo Gurgel, o famigerado Jurado C do Jabuti 2012, que deu nota zero para a escritora Ana Maria Machado e mudou a história da premiação. Sem o auxílio de Gurgel, que catapultou Nihonjin (Benvirá), de Oscar Nakasato, para a estante de obras localizada na frente das livrarias, tivemos que nos virar da forma que foi possível. Tentaremos não fazer feio. Vamos aos escolhidos:

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan (Intrínseca)

A trama do casamento, de Jeffrey Eugenides (Cia. das Letras)

Serena, de Ian McEwan (Cia. das Letras)

Paris: a festa continuou, de Alan Riding (Cia. das Letras)

A noite da arma, de David Carr (Record)

Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães (Cia. das Letras)

Getúlio 1882-1930: dos anos de formação à conquista do poder, de Lira Neto (Cia. das Letras)

Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo, de David Foster Wallace (Cia. das Letras)

Exclusiva, de Annalena Mcafee (Cia. das Letras)

Os ena­moramentos, de Javier Marías (Cia. das Letras)

O espírito da prosa: uma autobiografia literária, de Cristovão Tezza (Record)

O diabo na água benta, de Robert Darnton (Cia. das Letras)

Diálogos impossíveis, de Luis Fernando Verissimo (Objetiva)

Deixa ela entrar, de John Ajvide Lindqvist (Globo Livros)

Chamadas telefônicas, de Roberto Bolaño (Cia. das Letras)

A borra do café, de Mario Benedetti (Alfaguarra)

Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (Cia. das Letras)

Ar de Dylan, de Enrique Vila-Matas (Cosac Naify)

Amsterdam, Ian McEwan (Cia. das Letras)

1Q84 — Livro 1, de Haruki Murakami (Alfaguara)

Ops… Vai escapar o 21… Stieg Larsson: a verdadeira história do criador da Trilogia Millennium, de Jan-Erik Pettersson (Cia. das Letras)

Menção honrosa para as traduções de:

Ulysses, de James Joyce (Penguin-Companhia), por Caetano W. Galindo

Guerra e Paz, de Liev Tolstói (Cosac Naify), por Rubens Figueiredo

O livro que Helena Sroulevich gostaria de ver na lista:

O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe (Cosac Naify) – segundo Paulo Werneck, editor da Ilustríssima, Mãe é o “lisboeta bacana que causou sensação em Paraty”.

Carlos Eduardo Bacellar

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Juan Ernesto, Perón e Che

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A mentalidade indica: guerrilheiro é terrorista e este é fanático e/ou assassino. Recriados como gente íntegra, amantes e missionários de uma causa, é, certamente, doutrina ou retórica. Mas que nada, outro olhar é possível. “Infância Clandestina” dissolve o estereótipo em plenos “anos de chumbo” – o que é, no mínimo, uma prova de coragem.

Aos primeiros instantes, cenas nervosas, picotadas. Paramilitares tiroteiam o casal, enquanto se conclui na tela, em breves legendas, a precisa contextualização, fundamental à estrutura da obra. O espectador é informado que a direita militar (antiperonista) dá o golpe culminante em 1976 (em conjuntura diversa à brasileira, embora no marco da nova projeção dos Estados Unidos para o continente), após um período de intensa perseguição a militantes. Não é à toa que o produtor do filme é Luis Puenzo, diretor de “A história oficial” (1985, Oscar de melhor filme estrangeiro)…

Ela, a História, se destrincha através das pessoas, num microcosmo vivo e profundo. Ao final – e que final! –, a comoção prende ao escuro da sala, à reviravolta na mente. E viva o cinema argentino.

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O filme é um menino. É sobre ele, Juan/Ernesto (Teo Gutiérrez Romero), sua pele, beleza, poros e respiração. O som, editado com primor, frisa o compasso do ar que lhe entra e sai. A câmera perscruta obsessiva a sua cútis, vai às entranhas, persiste em closes. Ao se posicionar no esconderijo, na casa, é a imersão na alma. O ator é uma dádiva, sim, que se escora na apurada interpretação de César Troncoso e Natalia Oreiro (o casal militante, pais do menino), com o plus extraordinário de Ernesto Alterio (Beto, o tio). Eles se tornam críveis, loucos e sãos, com uma “ideologia prá viver”… Já Cristina Banegas, intérprete da avó do menino (Amália), pontua o antagonismo ao sentimento e razões dos guerrilheiros, situado com inteligência pelo diretor Benjamín Ávila.

Este põe a cara a tapas, libera e compartilha o seu segredo. Também autor do roteiro (com o brasileiro Marcelo Müller), escancara o paradoxo da luta armada na vida do menino, ele mesmo um paradoxo (nascido Juan, clandestino Ernesto), ele mesmo Benjamín. No entanto, Ernesto tem consciência de Juan e este de Ernesto, com seus limites e possibilidades, sugerindo domínio sobre o conflito, efeito da vivência no mundo adulto. É alguém que sonha e se aceita, rebela-se e revela amor por Maria, uma colega de escola. “Eu sou o que eu sou, mas sou diferente, entende?”, é o que lhe diz em momento de entrega. Tal lucidez se manifesta, em ápice, na cena final.

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Lacunas da narrativa são preenchidas por animações, a coincidir com as emoções infantis. Assim se conta duas mortes, do tio e do pai. Há visões em câmera lenta, correspondentes às sensações ou à memória afetiva, como a frase “Aconteça o que acontecer, nunca se traia” e a iniciação para degustar amendoim com chocolate com o tio Beto.

Em “Infância Clandestina”, vida é sinônimo de entrega em que transitam opostos complementares. Horacio é disciplina, Beto a sensualidade, a natureza do menino Juan/Ernesto é a referência poética a Juan Peron e Ernesto (Che) Guevara.

Claudia Furiati

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Peter Jackson reescreve “O hobbit” e transforma obra de Tolkien num apêndice de sua trilogia “O Senhor dos Anéis”

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“– Que você sempre apareça quando for mais necessário e menos esperado!”, disse o Rei Élfico da Floresta das Trevas a Gandalf, quando se despediram na fronteira leste de Mirkwood. Ainda falta muito para chegarmos a essa parte da história, que deverá ser concluída por Peter Jackson em 2014. Mas, por meio do extrato, é possível compreender a estratégia narrativa do diretor neozelandês para amalgamar o produto inicial de sua versão para as telas de O hobbit, romance do escritor sul-africano John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), publicado originalmente em 1937, à sua trilogia “O Senhor dos Anéis”: incorporar o que for mais necessário, mesmo que inesperado.

O diretor estava mais interessado em reescrever a história de Thorin Escudo de Carvalho e sua companhia para conformá-la a seu trabalho anterior na mitologia de Tolkien do que em respeitar a intenção do texto e algumas determinações intrínsecas a ele. A comitiva de Thorin, influenciada por Gandalf, contrata os serviços do hobbit Bilbo Bolseiro como ladrão furtivo, habilidade que não constava em seu currículo, e empreende missão suicida para livrar Erebor, a Montanha Solitária, localizada próximo à borda oriental da Floresta das Trevas, do jugo do dragão Smaug, o Dourado, recuperar o tesouro dos anões e restituir o trono e o título de Rei sob a Montanha a Thorin, filho de Thrain e neto de Thor.

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O roteiro deforma o papel de personagens que são só citados no livro, como Radagast, o Marrom, que é um dos Istari (espíritos Maiar enviados à Terra-Média para auxiliar os povos livres no combate a Sauron), juntamente com Gandalf, o Cinzento, Saruman, o Branco, e outros dois magos Azuis – não sei por que diabos Peter Jackson não os enfiou na trama também –, e extrapola a narrativa adicionando situações e fatos que não aparecem em O hobbit. Esse (des)controle sobre o formato é baseado em apêndices, anotações e outras histórias do universo de Tolkien. Tal “licença poética” seria perdoável se não fosse um mecanismo para ressaltar o super projeto de Jackson – com “a intenção de estabelecer melhor uma hexalogia”, bem dito por Érico Borgo em sua crítica – em detrimento do livro, sagrado para a comunidade de fãs do autor.

Jackson já havia feito alterações pontuais, que não descaracterizam a condução das aventuras, em “O Senhor do Anéis”. Na estruturação deste primeiro filme, cujo título é “O hobbit – uma jornada inesperada”, ele também faz o mesmo. Em paralelo a essa opção de abordagem, ele “prepara” o público para a chegada de Sauron. Aqui ele é descoberto por Radagast, apresentado no livro por Gandalf como seu primo, quando ele e Bilbo se apresentam ao homem-urso Beorn. O mago Marrom, numa incursão a Dol Guldur, fortaleza abandonada que fica no sul da Floresta das Trevas, descobre o Necromante, a alcunha de Sauron naquela época. Em Dol Guldur, Radagast entra em confronto com um Nazgûl, o espectro de um antigo rei dos homens que foi corrompido pelo poder de um dos anéis mágicos de Sauron – “They are the Nazgûl. Ringwraiths, neither living nor dead” (Aragorn)

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A ambiguidade moral de Saruman e seu caráter duvidoso também começam a ser contextualizados. O Branco destila sua astúcia atuando como advogado do diabo. Em outra sequência da imaginação dos roteiristas, provavelmente derivada do Apêndice A (Anais dos reis e governantes), tópico III (O povo de Durin) do terceiro volume de O Senhor do Anéis (Martins Fontes, 2a edição, 2000), há um encontro, em Valfenda (Rivendell), entre o mago Branco, Galadriel, senhora élfica da floresta de Lothlórien, Elrond e Gandalf. O tópico em discussão é a veracidade ou não de rumores dando conta de que um mal cresce ao sul da Floresta das Trevas. Alarme soado por Radagast e seu trenó de coelhos movidos a esteroides. Depois dos acontecimentos de O hobbit, Gandalf acaba convencendo Saruman e o Conselho Branco a atacar Dol Guldur, forçando Sauron a se retirar para Mordor. O resto da história nós já sabemos. Será que Jackson vai viajar longe assim?

Bilbo

Azog, assassino de Thor e filho de Bolg, líder orc esmagado por Beorn na Batalha dos Cinco Exércitos – Jackson certamente vai chegar lá e explorar toda potencialidade das batalhas épicas geradas pelo que existe de mais moderno na computação gráfica – é pinçado da página 24 de O hobbit (Martins Fontes, 2a edição, 1998) e se torna o antagonista figadal de Thorin. Todo herói precisa de um inimigo.

Todos artifícios de roteiro para conquistar corações e mentes. O espectador menos leniente com aspectos pedagógicos vai imaginar que está sendo tratado com condescendência excessiva – ou ler o filme como flashbacks da trilogia do anel; o que fizer uma análise comparativa entre a literatura de Tolkien e as realizações de Jackson poderá encarar “O hobbit” como uma tentativa de o diretor inflar seu ego de autor. Os ganchos narrativos utilizados por Tolkien para fisgar o leitor são subvertidos e colocados em prática para amarrar “O hobbit” não como um prelúdio, mas com um apêndice da saga de Frodo e da Sociedade do Anel.

Os próprios anões ganham constituições mais guerreiras. No livro são mais tapados e despreparados que os anões da Branca de Neve, salvo raríssimas situações (como na batalha final, em que Erebor e seus tesouros estão em jogo), dependendo de Bilbo e Gandalf para livrá-los das enrascadas em que se metem. Bilbo representa a esperteza, a bondade e a coragem improvável; Gandalf invoca a sabedoria e a experiência e surge como um Deus ex machina em situações extremas.

A

Fora isso, um investimento tão alto, apontado como o mais caro da história do cinema, girando em torno dos US$ 500 milhões, segundo Alessandro dos Santos, da revista Playboy, precisa ser capitalizado ao máximo. Três filmes significam lucro triplo. Achou que Jackson se importava com suas predileções literárias, seu tolinho? O resultado, uma produção arrastada, cansativa, que se estende por desnecessários 169 minutos, com muitas cenas longas e irregulares. E toma paisagens exuberantes que se perdem no horizonte, uma maneira de o diretor de fotografia Andrew Lesnie ilustrar com imagens a obsessão descritiva de Tolkien. Pelo menos deve ser a mentira que ele conta para si mesmo antes de dormir. Não havia opção a não ser enxertar no primeiro filme os planos e sequências que fossem possíveis para esticá-lo, diluindo a força da jornada ao leste. Mas o público atura, sempre ansiando pelo próximo combate, a próxima sequência de ação, hipnotizado pela qualidade técnica – a tecnologia a serviço de seres e cenários fantásticos. Um escapismo do prosaico é garantido, se é só isso que se espera de “O hobbit”.

Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens e Guillermo del Toro (que abandonou a Terra-Média mais cedo, mas conseguiu seu quinhão do tesouro), os famigerados roteiristas, cometem o erro capital de adaptar O hobbit para encaixar na trilogia cinematográfica “O Senhor dos Anéis”, e não para lograr da matriz de Tolkien o que se esperava: a elevação do objeto.

carlos_bacellar

p.s. Quem não gostou que venha preparado, pois estou empunhando Orcrist, a Fende-Orc.

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Errata

War on your mind

Fonte: weheartit.com

Um leitor (ou leitora) do blog discordou da minha crítica de “Holy motors”, o que é ótimo, e encontrou uma contradição no meu texto, o que é excelente. Por causa de um erro meu, provocado pelo atropelamento da coerência pelo pensamento revolto, eu disse que “Os amantes do círculo polar” (1998), do diretor espanhol Julio Medem teria servido de matriz para “Sangue ruim” (1986), do francês Leos Carax. Tal situação só seria possível se Carax fosse vidente, já que o filme de Medem foi lançado mais de uma década depois. A falha na construção do raciocínio foi apontada por (AKA) baudelaire — alcunha que remete ao poeta francês Charles Pierre Baudelaire, o que é no mínimo irônico.

Ambos, Carax e Medem, são caudatários do diretor italiano Federico Fellini (1920-1993) e de suas atmosferas feéricas, que transitam entre sonho e realidade. Medem se empenhou em refinar seus poemas audiovisuais de modo a criar uma assinatura estética própria, apostando na interseção entre fantasia/imaginação e o prosaico, enquanto Carax criou pastiches num exercício de antropofagia cinematográfica.

Além de sublinhar a contradição em que incorri, baudelaire, rebatendo meu texto, fez comentários relevantes acerca do diretor de “Boy meets girl” (1984) e de sua relação com Paris, e expôs brevemente sua posição sobre originalidade, autoralidade e identidade. Resolvi importar a troca de ideias do poscênio onde se encontravam os comentários de “Holy motors” e trazê-la para a ribalta. Este post funciona como errata – peço desculpas aos leitores – e, espero, abre um tópico para mais discussões construtivas, que explorem tanto o filme em questão como outras realizações. Por favor, apareçam, baudelaires!

Transcrevo nossa troca de mensagens abaixo:

leos carax é um dos cineastas franceses das últimas três décadas que mais consistentemente desenvolveu uma obra e um estilo que, para não partilhar de seus parâmetros à cerca de originalidade, pelo menos se serviram de matriz e influência para muitos outros cineastas. discordo que originalidade seja parâmetro de valoração estética, estilística, que um autor deva seguir caminho próprio. já é terreno esgotado essa discussão a cerca de autoria, sobretudo no cinema, uma arte eminentemente coletiva. e dizer que os amantes da ponte neuf é um filme que bebe do neorealismo é ignorar sua feitura numa Paris pessoal (marcadamente influenciada por um repertório cinefílico do diretor) e construída em estúdio! quer dizer, trata-se muito mais de uma Paris impressionista e antinaturalista, que uma Paris exposta em carne crua.

a parte isso, não entendi como mauvais sang pode ter sofrido influência, ou melhor, ter tentado reproduzir uma ‘narrativa poética’ de um filme posterior em mais de 10 anos. não sei o que quis dizer com isso…

ps.: não vi holy motors, ainda, e acho que a questão da crise de identidade supostamente debatida no filme multiplica ainda mais os horizontes do sujeito que, todos sabemos, é fragmentário, consiste numa multidão, e negar isso ou diagnosticá-lo como uma crise, um problema, não passa de falta de criatividade.” (baudelarie)

Minha resposta:

Opa! Discussão de alto nível! Discordo que a questão da autoria esteja esgotada. Vai de encontro a tudo que espero do cinema. Quando vejo o trabalho de diretores como Nuri Bilge Ceylan, Fatih Akin, Tarantino, Abbas Kiarostami, entre outros, recuso-me a acreditar que o coletivo eclipsou o individual. Posso concordar que Carax romantiza Paris, da mesma forma que Woody Allen idealizou sua Nova Iorque em “Manhattan” (1979), para ficar no exemplo mais óbvio. Ele arquiteta, como você bem disse, uma Paris “impressionista e antinaturalista”, uma cidade luz muito pessoal – erigida em sonhos, não em concreto e aço. Essa reflexão não nega toda temática neorrealista que grita por trás da encenação. Fico irritado com a obsessão de Carax pela ponte Neuf e pela ereção de Denis Lavant. Com relação à comparação entre “Mauvais Sang” (1986) e “Os amantes do círculo polar”, você tem razão, é uma contradição. Meu pensamento revolto se precipitou sobre a coerência. Ambos os diretores, Carax e Medem, bebem na fonte de um italiano chamado Federico Fellini. O relizador espanhol reverteu sua narrativa poética, delineada por elementos feéricos, em projetos de beleza singular. Já Carax não consegue nada mais do que um pastiche da obra felliniana, apostando naquele reme-reme de almas fadadas à segregação num ambiente urbano e cultural que salienta os contrastes sociais e emocionais. Nunca neguei esse “deslizamento do sujeito”, como bem disse meu amigo e crítico Luiz Fernando Gallego, nem o classifiquei como crise, já que constitui o mosaico de que somos feitos. Só que Carax não multiplica, e sim fatora, decompondo suas identidades em simulacros de outras fontes.

Assim como demonstrado por um dos personagens de “Os amantes do círculo polar”, pode ser que haja alguma presciência na obra do francês. Ele, bem como o tailandês Apichatpong Weerasethakul, estaria à frente de seu tempo. Grande parte da crítica acredita nisso. Eu não. Ninguém está totalmente certo nem totalmente errado, pois estamos falando de arte – e arte é disenso. Só o futuro dirá quem conseguiu focar com mais acuidade os elementos significativos (negativos ou positivos) da proposta estética de Carax.

Saliento que a minha opinião é só mais uma opinião, e não a opinião.

Quero deixar registrado que respeito suas opiniões, todas relevantes, e reconheço meus tropeços. Assista ao filme para podermos conversar mais.

Apareça sempre. O blog precisa de mais comentários como o seu.

 Carlos Eduardo Bacellar

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Holy shit!

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Leos Carax é doente! Dodói da cabeça! A construção camaleônica do personagem de Denis Lavant – seu ator-assinatura desde “Boy meets girl” (1984) – em “Holy motors” é sintoma de sua obsessão patológica. Obsessão voltada não para formas tortuosas de amor, estruturadas na improbabilidade, de que trata nos seus quatro longas anteriores, mas para marcas estéticas de outros realizadores que tornam o próprio Carax um transmorfo, destituído de impressão artística própria – sacralizador dos grandes movimentos, expressões e autores do cinema, mas profanador de uma incipiente autoralidade que se perde num retalho de estilos já patenteados e se torna uma farsa – mosaico de (des)significação.

“Sangue ruim” (1986), mais conhecido pelos puristas como “Mauvais sang”, é sua tentativa – ou seja, substantivo travestido de ação fracassada – de reproduzir a narrativa poética de Julio Medem em seu “Os amantes do círculo polar” (1998). O poema audiovisual de Medem serviu de matriz para uma história de amor de tons mais sombrios marcada pelo signo da inconcretude. (ver errata) “Sangue ruim” (1986), mais conhecido pelos puristas como “Mauvais sang”, é sua tentativa – ou seja, substantivo travestido de ação fracassada – de criar, mais de uma década antes, um envolvente poema audiovisual como o declamado em “Os amantes do círculo polar” (1998), do diretor espanhol Julio Medem, só que carregado de tons mais sombrios. Uma história de amor marcada pelo signo da inconcretude. Carax gosta de explorar (e forçar) o amor inusitado entre corações que batem em descompasso. Seja pelo contraste social ou por estados de espírito antípodas. Ambos são caudatários do diretor italiano Federico Fellini (1920-1993) e de suas atmosferas feéricas, que transitam entre sonho e realidade. Medem se empenhou em refinar suas narrativas poéticas de modo a criar uma assinatura estética própria, apostando na interseção entre fantasia/imaginação e o prosaico, enquanto Carax criou pastiches num exercício de antropofagia cinematográfica.

No já citado “Boy meets girl”, Carax tenta surfar tardiamente a Nouvelle Vague que Jean-Luc Godard dropou com tanta habilidade. Além de Godard, Alain Resnais, François Truffaut, Claude Chabrol, Agnès Varda e Louis Malle, entre outros, inconformados com os postulados cediços do cinema francês à época (uma percepção que tem como marco temporal a transição da década de 1950 para a de 1960), propuseram a libertação da câmera que, com mais mobilidade e praticidade, rebelde e provocativa, participava da ação como um personagem das produções de baixo orçamento da nova geração de cineastas, muitas vezes bancadas com recursos dos próprios diretores. Os filmes, nas palavra do crítico Luiz Carlos Merten, “eram todos confessionais, falavam de jovens parisienses da pequena-burguesia, suas aspirações, seus amores, suas frustrações”. Ironicamente, ao adotar tal postura em “Boy meets girl”, Carax trai dois temas caros ao movimento nouvelle-vaguista: fuga da hipocrisia e autenticidade.

“Pola X” (1999) é sua incursão num formato de distopia caudatário dos textos de Ray Bradbury e George Orwell, experiências literárias que se desdobram para as telas em filmes do próprio Truffaut – “Fahrenheit 451” (1966) –, Michael Radford – “1984” (1984) – e John Carpenter – “Fuga de Nova Iorque” (1981).

“Holy motors” é uma bricolagem que supostamente almeja homenagear o cinema e se consagrar como cult. Não consegue nem uma coisa nem outra. O shape shifter encarnado por Denis Lavant, um tal de senhor Oscar, trafega por Paris – o feioso Lavant só perde lugar na predileção de Carax para a tal ponte Neuf, locação-fetiche do realizador – numa limusine-camarim protagonizando um teatro nonsense em que o “público” (ou clientes) tem participação ativa. É possível até se confundir, se entrar na sala de exibição no susto, sem conferir os créditos, e achar que aquilo é um filme de David Lynch. Não… Perdão, David…

Carax, imiscuindo-se na plêiade, até importa dos esgotos de Tóquio seu Quasimodo ensandecido, que teve como balão de ensaio o média “Merde”, um dos episódios de “Tokyo!” (2008). Figura iconoclasta que alude ao cinema de Pier Paolo Pasolini e sua aversão a valores burgueses como a alienação, o conservadorismo, o consumismo, a falsa moralidade e a hipocrisia num episódio de conotação erótica com a tesuda Eva Mendes. E não pense que o francês é refratário à tecnologia. Há um quadro que evoca a revolucionária técnica de captura de movimento celebrizada por Andy Serkis, que, por meio de sensores, deu vida ao persongem Gollum na trilogia “O senhor dos anéis”.

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Não entenda mal estas linhas… Referências são essenciais, mas elas não podem se tornar quem o artista é em detrimento da valorização de uma assinatura estética – uma linha autoral – própria. Leos Carax é todo mundo, menos ele mesmo.

O trabalho de Carax que tangencia alguma pretensão autoral, curiosamente o mais comercial (consequentemente palatável), intitula-se “Os amantes da ponte Neuf” (1991). O envolvimento entre os personagens de Denis Lavant e Juliette Binoche, outra queridinha do diretor, funda-se na necessidade. As circunstâncias, mais do que o sentimento genuíno, transformam um na muleta do outro, o que torna aquela existência suportável. Mesmo assim, é um projeto moldado na temática social do neorrealismo – que traz em seu bojo o naturalismo e a preocupação com a realidade humana – e seu foco na esperança.

A febre do diretor francês por cinema é sintoma de sua síndrome de (Leonard) “Zelig” (1983). Com medo da rejeição, Carax se camufla no outro e, paradoxalmente, torna-se o próprio protagonista de “Holy motors” – Oscar, segundo Manohla Dargis, crítica do Times, seria um anagrama de Alex Oscar, jogo de palavras derivado do verdadeiro nome do diretor, Alexandre Oscar Dupont.

Carax (ou Zelix?) equivoca-se ao tentar se tornar autor e não protagoniza nada, exceto mais um pastiche, encenações do absurdo que o afastam da originalidade e o aproximam do repúdio que ele tanto tenta evitar.

 Carlos Eduardo Bacellar

 p.s. SPOILER!!! Meu Deus, o que é aquela conversa de limusines na sequência final?!

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