Se todos fossem no mundo iguais a você, Paulo Francis…

Completando o pensamento supracitado, um dos jornalistas mais polêmicos e ácidos que já transitou pelas redações da imprensa brasileira, Franz Paulo Trannin Heilborn (1930-1997), vulgo Paulo Francis, não teria tanta graça. O que faz de Francis uma ave rara é justamente o contraponto que ele fazia com os editoriais mais ortodoxos. Paulo Francis era um jornalista de opiniões, e que opiniões! Com seus textos ele se aproximava do acinte na medida em que se afastava da isenção. Por que ela fazia tanto sucesso?

Certa vez, um professor que eu tive na faculdade disse o seguinte (estou parafraseando): “Há três coisas que influenciam diretamente na vendagem dos jornais: mulher bonita (uhu!!!), bichinho e criança”. Eu acrescentaria outro substantivo à lista – a polêmica! Quem não gosta de um bafafá que atire a primeira pedra, ou ajuíze o primeiro processo. Os exocets sui generis de Francis eram o tempero apimentado de um quadro editorial linear, sem grandes emoções. Assim como num terremoto, os comentários do jornalista eram os abalos císmicos na imprensa nacional que faziam a agulha do sismógrafo registrar mais de 7 pontos na Escala Richter.

Ele não fazia média. A língua solta e afiada – aliada a um estilo mais pessoal e coloquial de tratar o texto e os temas – fez com que o jornalista caísse nas graças da galera, assim como lhe rendeu muitos desafetos.

Neste doc que acaba de estourar nas telas (“Caro Francis”), o diretor Nelson Hoineff trabalhou muito bem as facetas contraditórias do polêmico editorialista, que mudava de opinião como a Gisele Bündchen muda de roupa durante um desfile. Também não se furtou de colocar o dedo nas feridas de assuntos espinhosos, como o caso da Petrobras, que muitos acreditam ter sido o início do fim do Francis. Ao chamar a diretoria da Petrobras de “a maior quadrilha que já existiu”, afirmando que “os cabeças” da instituição extorquiam o povo brasileiro e tinham milhões de dólares na Europa”, ele comprou um briga feia que tornou seu horizonte mais nebuloso. Francis também trocou farpas com o ex-ombudsman do jornal Folha de São Paulo, Caio Túlio Costa, que não colocou o galho dentro. O imbróglio acabou desgastando o relacionamento de Francis com o veículo. Mas Hoineff não esqueceu também do lado terno e amigo, que conquistou muita gente.

Profissionais como ele fazem falta, como bem disse um dos entrevistados do documentário (se eu não estou enganado, um ex-ministro do qual não recordo o nome). Muitos jornalistas consagrados hoje dão seu depoimento nesta produção que surpreende mais pelo carisma e personalidade de Francis do que por outra coisa. Paulo “Bombástico” Francis passou seu bastão, mesmo que de forma inconsciente, para uma nova geração que entre outras figuras tem o duvidoso e imprevisível Diogo Mainardi. Ele defende seu amigo nos turbulentos episódios com a Petrobras e com o ex-ombudsman da Folha.

Certa ocasião, eu passei a adotar um bordão com o qual finalizava meus textos. Acredito que ele, ao ser levemente modificado, pode ser transposto para identificar o sentimento geral em relação ao Paulo Francis: o jornalista amado por alguns poucos, odiado por muitos, mas que todo mundo lia, ouvia e via.

É isso aí, Hoineff! Mais um ponto para a memória da imprensa nacional. Vale a pena conferir!

Carlos Eduardo Bacellar

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