Mikael Blomkvist (Daniel Craig) é repórter da Revista Millennium; que vê seu prestígio ruir após ser condenado por difamação. Buscando restabelecer sua idoneidade, o jornalista aceita o convite do empresário Henrik Vanger (o rouba-cenas, Christopher Plummer) e muda-se temporariamente para uma cidadezinha ao norte da Suécia. A missão é investigar o caso de desaparecimento da sobrinha Harriet.
Dias e noites são necessários para que Mikael reúna provas. A disputa de poder na família Vanger, sua aparente simpatia ao Nazismo e alusões ao Antigo Testamento presentes em uma caderneta deixada por Harriet parecem ser a chave para desvendar o mistério em torno de seu sumiço. Mas Mikael empaca. Lisbeth Salander (a merecidamente indicada ao Oscar Rooney Mara), competente hacker, outrora recrutada por Henrik para reunir informações sobre a vida de Mikael, é então convocada a unir-se ao detetive. E junto a ele, esclarece o caso Harriet e desmascara um serial killer de mulheres judias. Missão cumprida.
Acostumado com pistas e armadilhas a la 007, Daniel Craig faz Mikael Blomkvist com um “pé nas costas”. E não surpreende. David Fincher tem brilho: melhora a versão sueca cheia de hiatos de roteiro com montagem rítmica e trilha sonora “suor frio nas mãos”. Já Rooney Mara é mais que eficaz na “punk por fora, menina frágil por dentro” Lisbeth. De armadura robusta, sóbria, cheia de tatoos & piercings, beirando a mulher desinteressante, ela enfrenta todos para, na verdade, enfrentar a si própria.
Helena Sroulevich
p.s. Lisbeth descobre seu sex appeal na relação com Mikael. E a improbabilidade deste “casal”, elemento narrativo da Trilogia Larsson, é algo que Fincher não deu conta de explicar: a relação dos dois em tela beira o grotesco. Mas absolvo o Fincher. A “derrapada” foi por fidelidade à obra.
Na literatura da americana Kaui Hart Hemmings, o cineasta Alexander Payne, compatriota da escritora, encontrou a essência de sua cinematografia: a inflexão. “As confissões de Schmidt” (2002) e “Sideways” (2004), marcos na obra de Payne, refletem a preocupação com esse conceito, que o diretor vem depurando diligentemente ao longo de seus trabalhos.
No filme de 2002, Jack Nicholson interpreta Warren Schmidt, um sujeito que precisa se readaptar ao ser desnorteado pela aposentadoria, pela morte da esposa e pelo casamento da ex-filhinha do papai com um fracassado. A bordo de um motorhome, Schmidt parte numa viagem pelos Estados Unidos à procura de algo que lhe dê algum sentido.
Em “Sideways”, sua obra-prima, produção com a qual ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado, Paul Giamatti encarna o professor e escritor (ainda não publicado) Miles. Inepto emocionalmente, aspirante a enólogo e atraiçoado por uma timidez embaraçosa, Miles precisa lidar com um divórcio mal resolvido e a frustração profissional neste road movie etílico, no qual acompanha o amigo Jack (Thomas Haden Church) numa despedida de solteiro pelos vinhedos da Califórnia que descamba para uma orgia dionisiana.
Sim, viagens são uma constante, pois elas ejetam figuras (mais) perturbadas (ainda) pelas vicissitudes de sua zona de conforto. Alexander Payne aposta em tipos solitários, párias sociais, para trajar de drama comédias de costumes cujo estofo é o ocaso da classe média americana – que implode em seus conflitos, neuroses, inseguranças, arrivismos, hipocrisias e desequalizações.
Em “Os descendentes” (The descendants, no original), baseado no romance homônimo de Kaui Hart Hemmings, o mais novo estudo sociológico de Payne acerca dos efeitos de inflexões sobre um núcleo familiar, George Clooney (o homem que não tem a parte superior dos lábios e mesmo assim arrebenta) foi o escolhido para ser o catalisador das aflições que movimentam a trama.
O ator, na pele de Matt King, integrante de uma família de herdeiros de terras no Havaí, precisa reencontrar o caminho até suas filhas, Alexandra (Shailene “Nossa, nossa/Assim você me mata/Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego” Woodley) – a personagem de Evan Rachel Wood em “Thirteen” (2003) traduz bem a personalidade da moça – e Scottie (a nova Pequena Miss Sunshine Amara Miller), quando a mãe das meninas, Elizabeth (Patricia Hastie), sofre um acidente de barco e é condenada a um estado permanente de coma. A senhora King havia tomado providências legais para, no caso de qualquer acidente de desenlaces irreversíveis, não ser mantida viva artificialmente.
Além da necessidade de se reconciliar afetivamente com suas filhas, expurgando suas faltas como pai num novo reajustamento familiar, e confortá-las na dor da perda, Matt precisa gerenciar a venda de uma enorme região de terras virgens, de propriedade da família King, numa das ilhas havaianas. O clã King espera ansiosamente pelo desfecho do negócio, que enriquecerá a todos. Como dor de cabeça pouca é bobagem – e para reforçar novamente que Payne tem uma louca obsessão por rupturas –, Matt descobre que sua mulher estava tendo um caso. Nesse momento, o cronômetro regressivo do autocontrole e da integridade do marido corno acelera em direção ao ponto zero de tolerância. De quem ele esperava suporte, recebe desilusão.
Por meio dos personagens “ausentes” – a esposa que morre subitamente (“As confissões de Schmidt”), o fantasma da ex-mulher (“Sideways”) e a companheira em coma (“Os descendentes”) –, que transitam, à revelia, por todo espectro emocional que vai do amor ao ódio no inventário da consciência, Payne força seus protagonistas a reavaliar seus valores num estado de tensão emergencial. Cingidos pela decepção inesperada, sufocam na própria ignorância. Sem o chão, eles precisam aprender a caminhar no slackline que balança ao sabor das necessidades, ou sucumbir…
Depois dos papéis em “Syriana” (2005), “Amor sem escalas” (2009) e “Tudo pelo poder” (2011), George Clooney adiciona à sua carreira mais um personagem de profundidade psicológica, que desafia sua capacidade dramática com um tipo turvo, pendulando do heroísmo à vilania, da glória à perdição, da virtude ao vício. Quando as câmeras focam em Clooney, ele transparece um desencanto mais por se sentir anacrônico do que por alguma falha de caráter consciente. Chacoalhado pelas circunstâncias, Matt King se equilibra, sobre uma bússola de valores enviesados, entre qualidades e defeitos que lhe dão o tom de sua fragilidade. Pode render mais um Oscar a Clooney.
O filme, roteirizado por Payne, Nat Faxon e Jim Rash, passa longe do brilhantismo de “Sideways” – tavez por ser um pouco menos do mesmo –, mas merce ser visto. Produto do cinema atávico de Alexander Payne, “Os descendentes”, brinca de malabarismo com sonhos construídos e desfeitos ao longo da existência. E deixa uma mensagem de esperança, assinatura de próprio punho do realizador. Não por condescendência ou pieguice, mas na medida em que a vida precisa encontrar um jeito de continuar, mesmo torta.
Carlos Eduardo Bacellar
p.s. Atenção para uma ponta do mito do surfe de ondas grandes Laird Hamilton, no papel de Troy. Nas palavras da lenda Greg Noll, Hamilton é o maior surfista de ondas grandes que o mundo já viu. Ele não está exagerando… Um dos destaques do documentário Riding Giants (2004), de Stacy Peralta, o americano Laird surfou, em 2000, no pico de Teahupoo (Tahiti), aquela que foi considerada a onda do século XX – uma bizarrice da hidrodinâmica que redefiniu as possibilidade do surfe de morras monstruosas. Acesse o vídeo dessa insanidade aqui.
O cinema do diretor iraniano Asghar Farhadi é uma armadilha na qual enredamos nossas fraquezas. Quanto mais os personagens se debatem na tentativa de se livrar das situações impostas, mais revelam suas iniquidades morais. O egoísmo – sempre disfarçado de altruísmo hipócrita – revela suas diversas facetas num contexto predatório de sobrevivência social. Foi assim em “Procurando Elly” (2009), filme no qual o misterioso desaparecimento de uma jovem abre a Caixa de Pandora do núcleo de personagens, e é assim em “A separação”.
Farhadi se vale da reciclagem da banalidade para construir sua cama de gato embebida em cerol, na qual os protagonistas esfacelam camadas superficiais de humanidade – aproximando-os de um estado primitivo, no qual a moralidade se torna relativa e a ordem legal se torna um empecilho à liberdade, à reputação e ao bolso.
Um episódio aparentemente prosaico, a separação de um casal, complexifica-se quando é relacionado com o futuro de uma adolescente no Irã, com um idoso que sofre de Alzheimer e com um suposto ato de agressão sofrido por uma mulher grávida que termina em tristeza.
Preocupada com o desenvolvimento da filha Termeh (Sarina Farhadi) sob o regime iraniano, Simin (Leila Hatami) sonha levá-la para o exterior. Seu marido Nader (Peyman Moadi) se recusa a deixar o país, pois seu pai, lobotomizado pelo Alzheimer, requer cuidados intensivos. Inconformada com a desavença entre seus pais, Termeh joga um xadrez afetivo arriscado para impedir a separação de fato. Em meio ao conflito familiar, Nader precisa lidar com Razieh (Sareh Bayat), contratada para cuidar de seu pai. Um desentendimento entre patrão e empregada dinamita atritos, acusações, mentiras, violências, litígios. De inflexões nos detalhes mais simples do dia a dia, o diretor sutilmente arma sua arapuca. A isca é a dúvida em sua suas mais variadas acepções. Elipses no roteiro provocam o espectador. Ele se torna cúmplice ao ser deixado momentaneamente à deriva, imerso em suas suposições e seus preconceitos.
Ao derrubar seus personagens no poço, Farhadi observa que, ao se digladiarem para ver quem alcança a superfície primeiro, eles, ironicamente, exumam comportamentos condenáveis e desrespeitam a si mesmos. Ideias antes consolidadas de bem/mal, pecado/virtude, moral/imoral, verdade/mentira, vontade/dever se embaralham numa guerra psicológica de autopreservação no cerne de cada um deles. Paradoxalmente, quanto mais escalam o poço, mais se afundam em suas próprias razões (relativas), mesmo as menos nobres. Até as motivações mais íntegras são desvirtuadas pelo fluxo inexorável de acontecimentos.
No embate retórico, a razão se perde, ou melhor, deixa de ter relevância. Não há mais que determinar quem está certo e quem está errado. Todos são vítimas das próprias escaramuças. A maior delas é Termeh – em sua formação de caráter é semeado o desencanto e a descrença.
Com uma história ancorada na matéria-prima mais instável da natureza – ou seja, em gente –, desprovida de qualquer tipo de pirotecnia vazia, “A separação” cria a condição para que a nossa mediocridade rompa o dique das aparências. Quando nós fracassamos, o cinema de Asghar Farhadi sai fortalecido.
Partindo do banal, Farhadi cria um labirinto alegórico de emoções que encerra em seus esconsos as contradições e ambiguidades da condição humana.
É cada vez mais raro sairmos de uma sala de cinema com a sensação de que ali assistimos a algo singular, que muda bruscamente o centro de gravidade de nossas convicções e, consequentemente, quem somos. “A separação” provoca essa perturbação. Um filme universal nas suas humanidades. Ninguém sai incólume. Isto é arte. Isto é cinema.
Para Claudia Furiati, pela ótima dica. Sou um cara esperto, mas às vezes pego no tranco. Quando ela me perguntou pela terceira vez se eu tinha assistido ao filme, entendi que era melhor correr para a sala de cinema mais próxima.
“A diferença do chocolate para os outros doces é que ele traz o amargor disfarçado”, declara Angélique Delange, personagem da atriz Isabelle Carré em “Românticos anônimos”. O amargor experimentado por ela não é de ordem gastronômica. Mais subjetivo, chama-se solidão. Solidão imposta por sua falta de traquejo social, associada a uma síndrome de pânico que dispara como um alarme de incêndio quando ela se torna foco das atenções. Dirigida por Jean-Pierre Améris, a produção franco-belga conquista pela delicadeza com que é tratado o atravancamento emocional, subproduto da timidez patológica que desconcerta o casal de protagonistas.
Em busca de trabalho, a chocolateira Angélique vislumbra uma oportunidade na fábrica de chocolates do misantropo Jean-René Van Den Hugde (Benoît Poelvoorde, soberbo). O negócio está à beira da falência, e o que vier é lucro, inclusive um possível prejuízo. Angélique é a pessoa perfeita. Não para o cargo a que atendeu – ela é uma chocolateira excepcional, que esconde seus dotes com medo do reconhecimento, porém, foi contratada como vendedora –, mas para o contexto.
Jean-René sofre de inadequação parecida com a de sua nova funcionária. Sem o menor pendor para lidar com gente, ele esconde numa carcaça de austeridade um espírito sensível. Eles encontram na bizarrice ingênua do outro um rachadura por que atravessar, e a aproximação é estimulada pelos constrangimentos da, digamos…, falta de prática.
Mas a timidez tem tratamento, ora essa! Não pode ser motivo para impedir a felicidade. Angélique busca auxílio nos Emotivos Anônimos – disque 0 800 aguenta, coração! Exatamente o que você está pensando… Uma versão dos Alcoólicos Anônimos, mas para refratários à entrega, sabotados por suas disfuncionalidades sociais. Dependentes de trocas, que fogem delas com medo da decepção. Românticos incompreendidos, com nervos à flor da pele, que reprimem seus verdadeiros desejos e transparecem, nos momentos de tensão, os comportamentos mais curiosos. Como desmaiar ao admitir seu “problema”.
Já Jean-René expurga seus traumas no divã do psicanalista, que tenta soltá-lo utilizando-se de exercícios de desembaraço. A terapia de grupo com os emotivos e a fé em Freud podem dar um empurrãozinho, mas se jogar nos braços da pessoa amada pode ser uma tarefa complexa, que desafia os doze passos e o que estiver embrenhado no inconsciente mais profundo.
Nessa confusão sentimental, a paixão pelo chocolate, extravasada em verdadeiros rituais fisiológicos de fruição da gostosura – a exemplo do que era proporcionado pela talento culinário da personagem de Juliette Binoche em “Chocolate” (2000), de Lasse Hallström –, permite que Angélique e Jean-René desfrutem de sensações (verdadeiros orgasmos gastronômicos) que deveriam ser curtidas na cama, não no tacho. Sensações de que foram privados quando não conseguiram evitar a retração na concha da timidez autodestrutiva.
Nessa história de amor inusitada, que tinha tudo para dar desastrosamente errada, a paixão inocente que brota num casal maduro, gaguejando na comunicação afetiva e se acertando nos erros, encanta pela sensibilidade, traduzindo no comportamento (destrambelhado) e nos gestos (ora reticentes, ora amadoramente intensos) – de maneira divertidamente desprovida de malícia ou interesses egoístas – o que não era resolvido pelas palavras. Por sua estupenda atuação, conjugando autoconfiança, ingenuidade e doçura, sempre ao som de I have confidence (trilha sonora de “A noviça rebelde”, 1965), Isabelle Carré foi indicada ao César 2011, o Oscar francês.
Quantas vezes você esperou ansiosamente por um filme e acabou se decepcionando no final? Eu já caí em várias roubadas e, em dias de fúrias, tenho vontade de pedir meu suado dinheirinho de volta.
É fato que a produção de trailers também é uma indústria – já diria Amanda Woods, personagem de Cameron Diaz em “O amor não tira férias” (2006), filme de Nancy Meyers. Para satisfação de aficionados por pôsteres, uma segmentação talvez capitalista dos cinéfilos, os estúdios também apostam na habilidade dos designers gráficos para aguçar a curiosidade por uma obra. E é justamente aí em que eu e “O espião que sabia demais” nos encaixamos.
De férias em Londres, fui metralhada por pôsteres de Gary Oldman no metrô, nos ônibus, por todos os lados daquela cidade fantástica. Minha primeira reação foi: “Opa, Gary Oldman?” A segunda: “Opa, Gary Oldman como protagonista?” Pronto, estava fisgada.
Em letras minúsculas, como em anúncios publicitários, outros nomes conhecidos: Colin “Mr. Darcy” Firth, Tom Hardy, Toby Jones, Mark Strong, Benedict Cumberbatch… Quem precisa de um trailer para se convencer de que um filme vai “arrasar quarteirões?”
Esperei mais de três meses até que a produção chegasse aos cinemas brasileiros. No fim de semana de estreia, lá fui eu, com o coração apertado e milhares de perguntas na minha cabeça – E se não for tudo isso? E se eu me decepcionar? Mas é possível se decepcionar com um Gary Oldman? Um Colin Firth? Às vésperas do fim do mundo, essa resposta eu tive: não é, meus caros.
“O espião que sabia demais” é um filme inteligente, comedido, como há muito tempo não se via. Os espiões mais famosos do cinema (James Bond, Ethan Hunt e Jason Bourne) renderam-se aos efeitos especiais, aos músculos excessivamente torneados, às armas. George Smiley, de Gary Oldman, não faz parte desse clubinho, graças a Deus.
Smiley é um agente do MI6, que, após ser obrigado a se aposentar, recebe a missão de descobrir quem é o agente duplo infiltrado na organização. Recebe, na verdade, a mais inglória das tarefas: investigar os seus próprios parceiros, aqueles que deveriam ser fiéis aos mesmos propósitos que os seus. Já na casa dos 60 anos, ele fala baixo, tem gestos contidos e a reconhecida elegância inglesa, com seu terno bem cortado, casaco de chuva e cachecol de lã. Mal pega em uma arma durante os 127 minutos de filme; usa somente a inteligência e a observação minuciosa. A ausência de efeitos especiais não torna o filme nem um pouquinho menos interessante, tenha certeza disso.
O nome original – Tinker Tailor Soldier Spy – é curioso e explicado ao longo do filme, adaptado de uma obra de 1974 de John le Carré. Smiley, aliás, é um velho conhecido dos ingleses. No final da década de 70, era campeão de audiência na BBC.
Tom Hardy, sempre nos papéis do bonitão brutamontes, é uma boa surpresa da produção. Benedict Cumberbatch, que pode ser visto também em “Cavalo de Guerra”, continua, pra mim, uma incógnita. Vem sendo apontado por sites e revistas internacionais como uma das principais apostas para 2012, mas não teve uma atuação que justificasse tamanha expectativa. Colin Firth, para variar, só não supera Oldman.
Falando nele, 2012 pode corrigir uma das grandes injustiças desse mundo. Oldman não tem um Oscar. Ele nunca foi nem indicado a um, algo inimaginável até para Colin Firth, como revelou o intérprete do agente Smiley em entrevista ao The Sunday Times Magazine (vou vender meu peixe e sugerir que você confira essa matéria, ou pelo menos trechos dela, no meu blog).
Às vésperas do fim do mundo, eu torço pela paz mundial e pela salvação da humanidade, sem tanto esforço e tragédia como o anunciado no filme de Roland Emmerich. Também torço por menos injustiças; pela consagração de Gary Oldman, Meryl Streep de terno (sim, porque, assim como ela, ele pode fazer qualquer filme) e de um roteiro extremamente sagaz.
Tati Lima é autora do blog @osindicados e parceira querida do Doidos
Sempre correndo o risco de ser execrado pelas massas, editei minha lista com os melhores filmes de 2011. Tive certa dificuldade. Hesitei em algumas ocasiões, suei frio em outras. Em determinado momento, tive que interromper os trabalhos para ir ao banheiro, carcomido pelas dúvidas, tamanha era a minha tensão. Acabei encontrando a solução: por que selecionar 10 se posso selecionar 15? Como sou da pá virada, para ficar diferente… Os filmes em destaque foram contemplados com textos aqui no Doidos. Sem nenhuma ordenação específica de valor, aí vai:
Para @acrobat_, que também atende por Tatiana Monassa. Não a conheço, mas, com seus textos, veio conquistando aos poucos meu respeito intelectual. Ela me ganhou de vez quando, na crítica de “Piratas do Caribe – Navegando em águas misteriosas”, fez uma analogia entre o estilo de vida pirata e a encenação do filme, associando construções imagéticas – atreladas a paradigmas – à estética.
“A morte não é o fim. Ela deixa rastros”, diz um personagem de “Incêndios” – produção franco(TS Productions)-canadense(micro_scope) lançada em 2010, mas que estreou no Brasil em fevereiro deste ano. Rastros que a guerra escamoteia sob camadas de sangue e pólvora, criando covas rasas de silêncio que encerram horrores.
Baseado na peça Scorched – título da versão inglesa do texto original de Wajdi Mouawad, traduzido por Linda Gaboriau –, “Incêndios”, dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, exuma os dramas do passado hediondo de Nawal Marwan (um bravo! para a atriz belga Lubna Azabal).
Após sua morte, os filhos gêmeos de Nawal, Jeanne (Melissa Desormeaux-Poulin, a irmã que a diretora Julia Bacha tem e não sabe) e Simon (Maxim Gaudette), descobrem, por meio do testamento, que o pai está vivo e que eles têm um irmão. Durante os procedimentos de desvelamento do espólio, são surpreendidos por duas cartas lacradas: uma para o pai, que não sabiam que estava vivo, e a outra para um suposto irmão, cuja existência até então desconheciam. Há instruções para que as missivas sejam entregues pessoalmente.
Como o inusitado não se contenta com pouco, havia ainda uma terceira carta. O acesso a esta, destinada aos gêmeos, é contingenciado pelo destino das outras duas. Jeanne e Simon recebem a missão de encontrar seus parentes, peças do quebra-cabeça incompleto da história da família Marwan. Os trâmites burocráticos são gerenciados pelo notário Jean Lebel (Rémy Girard), preciso como um relógio suíço, para quem Nawal trabalhava como secretária.
Jeanne, embrenhada profissionalmente na matemática abstrata, vai descobrir que a vida, a despeito de teoricamente repudiar o pensamento cartesiano, pode ser reduzida a uma equação simples, de fácil resolução, quando as incógnitas são dispostas na ordenação correta.
O filme, roteirizado pelo próprio diretor, assessorado por Valérie Beaugrand-Champagne, intercala flashbacks da juventude de Nawal, em algum período entre a década de 1970 e 1980, e o presente, no qual seus filhos tentam decifrar quem foi verdadeiramente a mãe numa busca genealógica praticamente às cegas. Fugindo ao padrão do que se espera de uma história tão dura, o roteiro enxerta nas feridas expostas toques de comicidade sutil, sopros de leveza numa história de dor que atenua o fardo de quem assiste – doses homeopáticas de tragicomicidade com uma nível de maestria menor que o do cinema argentino, que transita na interseção entre o drama e a comédia sem escorregar.
O inferno geográfico de Nawal é um país fictício assolado pela guerra civil, cujo estopim foi o conflito étnico-religioso. O diretor possivelmente se inspirou em elementos da guerra civil libanesa, que teve seu período mais trágico nos primeiros anos da década de 1980.
O conflito entre cristãos e muçulmanos funciona apenas como o esboço de cenário no qual os dramas de Nawal se desenrolam. Abafando os ruídos da guerra com os estrondos da devastação interior de sua personagem, o diretor dilui a face institucionalizada do confronto, que poderia abrir margem a (somente) interpretações de cunho político ou ideológico. As atrocidades estão lá, mas as violências audiovisuais às quais somos submetidos nos perturbam com cada vez menos intensidade ao longo da exibição, frente ao espírito carbonizado de uma mulher que se inflamou num ódio desmedido. O ground zero é um coração de mãe programado pelas circunstâncias desumanas para ir de encontro à sua natureza.
O trabalho das câmeras, gerenciado pelo diretor de fotografia André Turpin, é estruturado de modo a esmiuçar o estado emocional de Nawal com uma pegada ficcional, expondo uma miríade disforme de dor, sofrimento e ódio – estado de espírito que desafia o entendimento do espectador. Mas Turpin também articula suas lentes para que elas traduzam cenas que dialogam com a linguagem documental, criando imagens de observação passiva e impessoal, entorpecidas pela realidade implacável.
Uma de minha críticas preferidas chama-se Tatiana Monassa. No livro Os filmes que sonhamos – Vol. I, lançamento recente da Lume Filmes, Tatiana contribui com um texto magistral sobre “Vá e Veja” (1985), do diretor russo Elem Klimov – curiosamente, um filme de guerra, mas uma guerra abstrata, que se desenrola no cerne do personagem, como em “A glória de um covarde” (1951), de John Huston. Algumas ideias de Monassa naquela crítica permeiam este texto. Com a licença dela, gostaria de subverter algumas outras para que sirvam ao meu propósito.
O ponto de inflexão da consciência de Nawal Marwan, e da trama, ocorre quando ela encara um “Hitler” (as aspas são minhas) íntimo, mas ao mesmo tempo desconhecido, estabelecendo uma contradição entre instinto e experiência. Refletindo acerca das palavras de Tatiana, enxergo um pouco mais: “olhar para o rosto de Hitler [neste caso adulto] após termos vivenciado a revolta, a raiva e a dor incitadas pela violência mais grotesca que se poderia imaginar é colocar em xeque não apenas um punhado de certezas e vícios, mas se fazer uma interrogação existencial sem resposta possível no horizonte.”
A guerra travada em nosso íntimo é tanto ou mais devastadora, pois a possibilidade de um armistício se torna complexa quando o inimigo é você mesmo – e não existe salvação, apenas compreensão e aceitação.
“Incêndios”, embalado pela trilha sonora do Radiohead, concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano. Perdeu a estatueta para “Em um mundo melhor”, da diretora Susanne Bier. Não é à toa que ele integra a minha lista de melhores produções de 2011. Falando nela, dê uma espiadinha aí em cima.
Nossa veia não resiste ao declínio do Império Americano e vamos com “Tudo pelo Poder” na despedida de 2011. Quanto a George Clooney, confesso, é aquela chuva no molhado feminino com direito a Globo de Ouro.
Keep cool…
É verdade que nossos irmãos do Norte adoram a catarse sobre o poder deles. Mesmo assim, meu alento perdura ao sair da sala de cinema, ainda que a esquina do Leblon já tenha cervejeiro demais. Huum… Deve ser esse estilo Clooney (vide Nespresso): cool, original e temporão, um quê balzaquiano de boa safra. Quase noir, embora a cores, o filme é uma certeira síntese entre drama político e thriller, ficção, documento e POLÍTICA.
George, para os íntimos, vem de gostosa contenção. Com (aquele) olhar rasgado, narrador em terceira pessoa e personagem (Governador Mike Morris, candidato à presidência), traz lembranças de “Todos os Homens do Presidente”,”JFK”, “Nixon”, “Nos bastidores da notícia”, “O Presidente”, The West Wing e ainda o caso Monica Lewinsky, a estagiária de Bill Clinton. Porém, qualquer referência desta no personagem de Evan Rachel Wood, é uma mera coincidência, dado que para todo político charmoso há sempre uma boa estagiária…
Nada vulgar no filme, entretanto.Caricaturas passam ao largo. A lente se insinua pela fenda, digladia-se com a linhagem das obras sobre os escaninhos do poder, as campanhas presidenciais e o controle da informação. Violento é o cinismo e ferino é o vazio que se instala na medula da democracia made in USA.
Sim, a história política norteamericana está repleta de The Ides of March (título original de “Tudo pelo Poder”). Adaptação de uma peça de Beau Willimon, também co roteirista, a expressão se refere a 15 de março no calendário romano, ao ponto do meio, à lua cheia e a Julio César, quando um adivinho previne o imperador romano sobre os que tramam contra ele, no drama de William Shakespeare.
O protagonista do filme, o comunicador Stephen Myers (personagem do excelente Ryan Gosling), apesar de descrito como idealista nas sinopses em circulação, é por demais inteligente para ser naive. A interpretação, sob a batuta de Clooney, contém um tom necessário de farsa, desde o início. Ao se tornar o alvo da corrupção, o golpe de Stephen é de mestre, uma vendetta na democracia (como num regime autoritário). No clímax, o bloco do poder se assume intérprete da vontade cidadã. Rearranja-se, após ceder ao dono da área, o Senador Thompson (Jeffrey Wright), um negro, a propósito… Quanto à mídia, faz de tudo pelo poder, mas não é poder algum: apenas se ajoelha ao interesse dominante.
Mais que ilustres coadjuvantes — Philip Seymour Hoffman (Paul Zara), Paul Giamatti (Tom Duffy), Marisa Tomei (Ida Horowicz) — alicerçam a moldura. Como nas obras em círculo (vicioso), “Tudo pelo Poder” termina como começa. Stephen Myers (Ryan Gosling) será apenas — e sempre — o fantoche que antecede a cena do candidato. Não voltará a ser como antes, embora seja o mesmo.
Sabe o que me parece mais gozado em “O Palhaço”? Incrível mesmo? É que teria tudo para dar errado. Título e tema fora do script metropolitano, um ruído informático mercadológico, um tropeção desses de picadeiro. Mas conquistou o público.
Podia. “O Palhaço” podia ter dado em trapalhada, mas obra de arte com sucesso continua aquela combinação sem receita, às vezes até subversiva (!).
Suponho que na sessão do último sábado (16hs, Unibanco Arteplex), boa parte do público era de quem nunca foi ao circo ou sempre desdenhou palhaço, nem nunca viu o Carequinha na TV (Gente, eu vi…). Porém, o pessoal se encantou e se intrigou com Selton Mello, um palhaço deprimido na vida, cuja graça persiste além da arena circense (como constata em fala sutil, a atriz Fabiana Karla), embora ele a julgue perdida.
A narrativa, cujo fio é o itinerante Circo Esperança, nos assalta de surpresas. “Pontas” divinas não faltam (Moacyr Franco, Jorge Loredo, Tonico Pereira e a própria Fabiana Karla). Ao contrário, os atores dão o tom da competente produção de Vânia Cattani. Partem de um inteligente desenho de “casting”, escolhidos a dedo, conhecidos ou não. São quase a alma do filme — a começar por Paulo José –, se não fosse a maestria da “posta em cena” do diretor Selton Mello, escoltado por uma direção de arte (Cláudio Amaral Peixoto) e figurinos (Kika Lopes) de grande beleza, em sintonia com uma bucólica Minas Gerais.
O filme nos provoca uma gostosa saudade: das crianças que somos e do ingênuo humor brasileiro. Se o palhaço Selton Mello já não tem esperança, perdeu a graça de viver, a sua expectativa é, no mínimo, pueril. Quer alguém que o faça rir, além de um ventilador, que vira a sua hilária obsessão, muito bem pontuada pelo roteiro. No fim de contas, o palhaço quer uma ventania que tudo desarrume. Ele precisa romper.
Prendendo o espectador do início ao fim, com alguma ameaça de perder o alinhavo nas sequências anteriores à despedida do Palhaço da Trupe Esperança, a obra indica que a ruptura é o campo da descoberta. Com ela, ele reencontra o riso, abre-se ao amor e compra, enfim, um ventilador, quase em pacote, um depois outro. E regressa ao Circo Esperança, a si mesmo.
Após “Feliz Natal”, seu primeiro longa, em “O Palhaço”, Selton faz um reveillon de gala e se revela, precocemente, um diretor sensível e maduro.
Imiscuindo a linguagem documental no âmbito ficcional, como fez, recentemente, o diretor Gustavo Pizzi em “Riscado” (2010), Nando Olival (“Domésticas”, 2001), em “Os 3”, testa a resistência dos laços emocionais de um triângulo amoroso, arquitetado na amizade, utilizando a representação como a cortina de fumaça que nos impede de discernir verdades de mentiras.
Cazé (Gabriel Godoy), Rafael (Victor Mendes) e Camila (a estonteante Juliana Schalch) são jovens universitários como tantos outros que existem por aí. Originários de locais distintos, convergem para um grande centro em busca de emancipação, novidades e oportunidades. Ao se conhecerem numa festa, decidem morar juntos e criam elos (quase) inabaláveis de afeto durante um relacionamento intenso, que agrega companheirismo, inocência e jogos de conquista numa república hormonal.
Um projeto de faculdade sai do PowerPoint e estremece o dia a dia dos amigos: um reality show, patrocinado por uma loja de departamentos, emplaca os três como protagonistas de… suas próprias existências. A ideia do esforço de merchandising editorial é encher o apartamento dos estudantes de câmeras ligadas à web, de modo a acompanhar a rotina do trio pela Internet, como uma novela da vida real on-line. A narrativa realista seria o elemento persuasivo para alavancar as vendas de produtos espalhados estrategicamente por todo o apê, a distância de um clique. Prestes a se formar, os 3 encaram a experiência como uma forma de ganhar algum dinheiro e continuar juntos por mais algum tempo.
O site se torna um sucesso graças às histórias apimentadas, repletas de insinuações provocativas, cujas locações são a cama, o sofá da sala, a cozinha, o banheiro… sabe como é, filme de baixo orçamento. Possivelmente por causa das restrições orçamentárias, não há câmeras no terraço, onde a caixa d’água faz as vezes de piscina. Felizmente as lentes do diretor de fotografia Ricardo Della Rosa estavam a postos nessas ocasiões.
Olival, maroto, tripudia de nossas certezas quando obriga Cazé, Rafael e Camila a transitar às cegas na interseção escorregadia entre honestidade e mentira. Os sentimentos são privados da autenticidade e se transformam em peças de um jogo em que o desejo se torna uma falsificação, um blefe para angariar page views. Os conflitos se confundem com ganchos, e a teatralidade torna ambígua qualquer tipo de interação, paradoxalmente diluindo a força da veracidade, sob suspeição, de aproximações e rupturas.
A realidade se curva à encenação, e não o contrário. Os personagens sufocam em palavras de carinho comprimidas pelas dúvidas. Imersos na ficção, não conseguem fugir do roteiro criado por eles mesmos (ou seria por Nando Olival e Thiago Dottori?): a sedução (segura) da obra em detrimento das incertezas de dizer “quero você”. A essência do relacionamento dos 3 é resignificada num ménage à trois de amadurecimento, não de prazer. Afrodisíaco!
Curiosidade: Nando Olival foi o realizador do simpático curta “Eduardo e Mônica”, produzido pela produtora O2 para a operadora Vivo.
Carlos Eduardo Bacellar
p.s. Nando Olival se vale da metalinguagem para, sutilmente, ironizar a sociedade do espetáculo, cujo estandarte, na sociedade atual, são os reality shows.
p.s.2 Curta a trilha sonora de “Os 3″, criada por Ed Côrtes.
p.s.3 Nando, precisamos do telefone da Juliana Schalch. Queremos fazer uma entrevista extensa para o blog. Pode ser?
Este blog é dedicado ao Cinema.
É um espaço impressionista, e não jornalístico.
Nossa pauta é não ter pauta.
Tomara que toda essa doideira pela sétima arte contamine vocês!